A realidade sobre morar no exterior que ninguém comenta nas redes sociais

Acho difícil encontrar alguém que nunca teve vontade de morar fora do país, mesmo que temporariamente. Os motivos desta vontade são variados e podem incluir ter uma experiência cultural e profissional no exterior, aprender uma nova língua, expor os filhos a uma nova realidade e ter uma melhor qualidade de vida, longe de violência que acomete alguns lugares do Brasil. A maioria das discussões que encontro nas redes sociais hoje fala destes motivos mas não traz a realidade DEPOIS de você chegar e o impacto que os imigrantes acabam tendo de estar em um lugar onde eles nunca moraram.

Vou dar um resumo da minha história como imigrante: vim para Toronto em 2010 fazer um PhD na Universidade de Toronto. Vim com bolsa de estudo, trabalho e meu marido conseguiu emprego em 1 semana aqui, na sua área. No nosso segundo ano aqui já compramos nossa casa própria. Deu tão certo que hoje – 10 anos depois – nós dois continuamos trabalhando nas mesmas empresas e com a mesma equipe. Nosso plano não era ficar aqui, mas nos apaixonamos pela cidade e decidimos ficar. Nosso processo de imigração foi um pouco diferente do que hoje acontece (porque as regras mudaram) e eu contei detalhes dele aqui e aqui. Em abril de 2019 nos tornamos canadenses.

Eu gosto de contar minha história sempre, porque considero ela uma história de sucesso e espero que sirva de inspiração para muitas pessoas que me seguem. Não foi fácil chegar até aqui – e não é fácil: tem MUITA coisa que ainda queremos conquistar, mas eu me sinto muito feliz com tudo que já vivi no Canadá e o lugar que eu estou profissionalmente e pessoalmente. Ao mesmo tempo, eu sinto que compartilhar minha história traz MUITA responsabilidade, porque eu sei que na maioria das vezes este caminho não é o traçado pelos imigrantes.

Os problemas começam antes mesmo de você chegar no Canadá: o processo para conseguir seu visto é demorado e cansativo e nem sempre é alcançado. A ansiedade de conseguir o visto é real e presente em quase todos os processos. E depois de você estar aqui e ter o visto tem todo o longo caminho para você ter a residência permanente e uma outra espera, para ser cidadão canadense. Se vocês verem nosso processo (aqui e aqui) nós aplicamos duas vezes – porque a categoria aplicada inicialmente era a errada e fizemos tudo por conta própria – e só em 2019 que viramos canadenses. Não foi fácil, mas valeu o esforço.

Ai você chega e tudo é diferente: desde ir no banco até o médico. E tem o fato de tudo ser em inglês (ou francês em algumas cidades) e por mais fluente que você seja ouvir inglês 24h é extremamente desgastante. Até você fazer aquele click demora algum tempo. No meu caso eu já vim fluente em inglês e mesmo assim achava complicado entender termos de coisas comuns do cotidiano, que certamente eu não tinha aprendido nos meus cursos de inglês no Brasil. Sempre meti a cara e nunca fiquei com medo de errar. Aliás, sempre achei as pessoas daqui muito tranquilas para falar devagar e explicar em outras palavras o que eu não entendia. Este texto aqui dá algumas dicas do que fazer nas primeiras semanas estando em Toronto e lendo ele eu consigo relembrar um pouco dos perrengues que passei para fazer tudo isso e entender tudo que estavam tentando me explicar.

Quem me conhece sabe que eu sou uma pessoa preparada psicologicamente e espiritualmente. Eu me abalo com as coisas, mas sempre foco naquilo que é bom e no aprendizado que eu terei nos momentos difíceis que passo. Eu acredito que Deus sabe o que faz e ele sempre me trouxe muita coisa boa, mesmo que algumas vezes por caminhos, digamos, tortuosos. mas eu sei que morar em outro país pode não ser fácil para muitos: a falta da família, os longos meses de inverno (com seus dias frios e escuros), a frieza dos canadenses (não quero generalizar mas eles não são como os brasileiros), e por ai vai. Planejar um plano de imigração vai muito além dos papéis e do financeiro: você PRECISA se preparar psicologicamente para tudo que virá.

A busca por uma vida no exterior pode ser muito frustrante na área profissional. Muitas pessoas chegam e vão trabalhar nos chamados entry level jobs, o que erroneamente algumas pessoas chamam de subemprego. Na minha opinião subemprego são trabalhos não qualificados com remuneração muito baixa. Aqui os salários são em sua maioria justos – mesmo que mínimos. Algumas pessoas também mudam totalmente de área e conheço várias que se realizaram com a nova profissão. Eu sinto que os brasileiros são sim muito batalhadores e me orgulho de ver histórias de sucesso de empreendedores do Brasil. A minha história profissional aqui no Canadá não pode ser tomada como base, mas eu posso usar a história do meu marido, que tinha um cargo de chefia no Brasil e quando chegou teve que baixar alguns cargos. Ao longo dos anos de dedicação e trabalho ele já alcançou o cargo que tinha no Brasil, mas teve paciência e entendeu que precisava ter esta experiência no exterior para alcançar o que queria.

Esteja preparado para ser “a Gabriela que é Brasileira”, mesmo já sendo Canadense. Você sempre será imigrante e mesmo acreditando que os imigrantes sejam respeitados aqui no Canadá (na maioria das vezes), sempre há distinção em conversas e detalhes que você não entenderá. Já me peguei sendo apontada ou recebendo explicações diferentes no trabalho por não ter nascido aqui e algumas vezes fiquei chateada com a situação, mesmo sabendo que não foi por mal. Eu falo isso por mim, mas fico imaginando o impacto deste “não pertencer” dos filhos dos pais imigrantes que não nascem aqui e tem que aprender uma nova cultura para se sentirem parte do grupo. O diálogo entre pais e filhos que estão imigrando deve ser aberto e incluir uma reflexão sobre este e outros assuntos.

Acho que a palavra que deve estar inserida neste contexto é EXPECTATIVA. Quando você pensa em qualidade de vida o que vem na sua cabeça? Uma casa linda e enorme e muitas viagens? Ou seus impostos sendo investidos na escola do seu filho, acesso ao serviço de saúde igualitário, segurança para aproveitar os parques da cidade? Quando começamos a criar nosso plano de imigração na cabeça a gente cria expectativas, é inevitável. Mas a gente tem que pesquisar, ler, entender nossas limitações e nossas qualidades. Só assim a gente vai conseguir ver o que as pessoas postam nas redes sociais e selecionar o que é válido ou não para a minha realidade. E falo isso não só pelas coisas boas, mas sim pelas várias pessoas que também reclamam muito da vida no Canadá, mas talvez não fizeram um plano tão detalhado quanto o seu.

Sim, existem muitos problemas na vida de imigrante, como existem problemas na vida daqueles que moram no seu próprio país. É importante colocar os prós e contras da sua escolha de morar no Canadá e ver se aquela realidade funciona na dinâmica da sua família e se você está preparado para tudo que esta vida trará – um início financeiramente mais difícil, o choque cultural, o frio extremo do inverno, a língua, o título de “ser imigrante”, o diferente sistema de saúde, o cargo mais baixo ou o emprego diferente, e por ai vai. Se a balança pender para o Canadá venha sem medo, dedique-se, esforce-se e aproveite as coisas boas da vida nova que você escolheu, mesmo que elas demorem um pouco para aparecer.

A foto em destaque é do site: www.freepik.com

8 Resultados

  1. Nobre disse:

    ola, vocês são os escolhidos de Deus, porque e muita sorte emprego na area, casa, cidadania e mesmo muita sorte e trabalho mas serio muita sorte mesmo .

  2. Arthur disse:

    Brasileiro vem pra ca achando que eh conto de fadas, que vai ter uma mansao e um iate, que vai trabalhar pouco e ganhar muito, ai chega aqui e so quer interagir com outros brasileiros, e por ai vai. Depois comeca a reclamar que canadense eh isso ou aquilo, mas nao faz o minimo de esforco pra se adaptar.

  3. Juliana disse:

    Adorei e serve para abrir os olhos daqueles que pensam que tudo será rosas, mas precisamos lembrar que terá os espinhos e não são poucos.

  4. Simone disse:

    Curiosidade de imigrante….

    Qual o % de impostos recolhidos do salário das pessoas que moram e trabalham no Canadá ? Obrigada

  5. Ursula disse:

    Sempre me lembro dos comentários do meu professor de inglês em Montreal, ele e turco e foi contratado na escola no Canadá, nos dizia: os canadenses querem que você trabalhe da forma como eles querem, e você que tem que se adaptar, bem pé no chão!

  6. Amei o texto, Gaby! Como sempre sincera e detalhista!

  7. Carol disse:

    Adorei seu post Gaby, muito bem pensado e escrito. Bjao

  8. Ariane Thaise disse:

    Sempre muito sensata e realista!! Morei um ano no Canadá para fazer pós doc e concordo com tudo! O psicológico tem q estar muito preparado! São mtas adaptações!!!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *