O dia que eu tive que parar

Eu tenho o blog como um diário pois aqui escrevo não só dicas de Toronto mas o que tem acontecido na minha vida desde que vim morar aqui nas terras do Norte, a 8 anos atrás. Eu já contei para vocês sobre a ansiedade que estava tomando conta de mim dias antes de eu me mudar para o Canadá, sobre a felicidade quando meu marido saiu do emprego para se mudar para cá comigo, sobre a perda do meu sogro inesperadamente, sobre o dia que perdemos nosso primeiro bebê, sobre algumas alegrias simples antes de eu ter o Thomas, sobre o susto que Jojoe nos deu, sobre a generosidade de Deus em me permitir gerar uma nova vida, e muito mais. Quando as pessoas me perguntam qual o segredo do sucesso do meu blog eu acho que é isso: escrever por amor e escrever sem intuito de ganhar dinheiro, ou seguidores… escrever para ajudar e para deixar a sua história de alguma forma registrada e eternizada. E é por isso que eu escrevo. E é por isso que eu não poderia deixar de escrever sobre o que aconteceu na semana passada.

Mulheres grávidas irão se identificar que fazer xixi é algo que acaba virando rotina, especialmente à noite. Eu tenho um sono ótimo e sofro bastante para acordar para fazer xixi agora que a barriga está enorme. Então eu sempre dou aquela última visita ao banheiro antes de dormir, para otimizar o sono. E nesta minha última visita na terça-feira dia 22 de maio eu tive uma surpresa, vi o papel sair super vermelho. Sim. Sangue. Muito sangue. Na hora o Ian mexia muito na minha barriga então eu tentei relaxar, mas foi impossível e lembro de correr para me arrumar e ir para o hospital. Apreensão. Medo. Nervoso. Eu lembro que evitava pensar e concentrava minha energia nos movimentos do meu filho.

Chegando no hospital fui atendida imediatamente e logo já colocaram os monitores e viram que o Ian estava bem. Fizeram alguns exames e viram que eu estava bem também, mas que ia ser admitida e monitorada por 2 dias para ter certeza que tudo ficaria bem, afinal ainda faltam muitas semanas para ele nascer (estava “apenas” de 28 semanas). Recebi injeções de corticóides para desenvolver o pulmão do Ian – caso ele queira nascer antes – e fui monitorada direto, me sentindo muito mais tranquila e sabendo que estava em boas mãos.

Os dias no hospital foram tranquilos e de muita saudade do Thomas e Jojoe. Pode parecer pouco 2 dias mas ficar todo este tempo longe do meu filho não foi fácil. Ele estava super bem cuidado – já que por sorte minha sogra está visitando a gente nestes dias – mas deu uma saudade doída de não poder dar jantar, ganhar beijo e fazer ele dormir. Essas coisas simples que sempre fizeram meus dias mais felizes. Mas depois de dois dias fui liberada e voltamos para casa, com certa restrição.

Nos dias que estive no hospital eu descansei, mas trabalhei bastante. Queria estar com a minha cabeça ocupada. E assim fiz. Inclusive já tinha até combinado com meu marido de me levar no trabalho na sexta ou segunda para eu pegar uns papéis e documentos para poder trabalhar melhor de casa. Mesmo com um atestado de repouso de 10 dias eu já estava decidida a trabalhar direto e adiantar tudo, porque não me via parada em casa por 2 meses. Porém, antes de receber alta do hospital na quinta, a enfermeira me convidou para visitar a NICU (Neonatal Intensive Care Unit) que é a UTI dos bebês que nascem antes. Foi ai que a ficha caiu e que meu chão desabou. O local é lindo mas com a explicação de como os bebês ficam e tudo que acontece eu realmente entendi que deveria parar e ouvir os sinais do meu corpo, porque eu quero ter meu filho e trazer ele para casa, não deixar ele na NICU (apesar do incrível cuidado que eles tem). Eu chorei muito durante a visita e depois disso eu entendi que deveria parar e focar em manter o Ian saudável na minha barriga até o final da gestação.

E foi ai que eu comecei a liberar compromissos, cancelar passeios, passar projetos para pesquisadores parceiros e dizer simplesmente “sorry” porque eu não poderia fazer. Quem me conhece sabe o quão difícil isso é, porque trabalhar e me manter produtiva em todos os aspectos da minha é algo que me faz bem e me move nos dias dias. Mas aquela visita à UTI Neonatal fez com que parar se tornasse algo necessário e é isso que eu estou fazendo dia-a-dia desde então, com muita luta porque eu sou muito ativa. Eu continuo trabalhando mas mantendo uma rotina leve e não me matando como eu costumava. No quesito casa eu deixei para lá: não posso pegar peso, não posso andar muito, não posso ficar muito em pé… então eu simplesmente abstraio da bagunça e foco na saúde do meu bebê. No quesito família ainda estou sofrendo, já que é difícil ver os dias lindos lá fora, ouvir os latidos do Jojoe e as risadas do Thomas e não poder estar lá com eles.

Cada dia é uma vitória e a cada dia que passa com o Ian na minha barriga eu sei que ele está desenvolvendo-se mais e ficando cada vez mais forte e pronto para fazer parte desta família que já o ama muito. E em relação a mamãe aqui, cada dia que passa ela tem aprendido que é Deus que está no comando e tem cultivado a paciência e o cuidado, independente das tarefas e compromissos que possam existir.



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RENATA

Emocionada d+ com seu relato ! Deus esteja sempre com vocês !
Amei conhecer a cidade através de suas dicas… Muito obrigada por compartilhar sempre !
bjsss

Ju on the hill

Gaby, mudar de planos não é fácil, repouso é difícil mesmo, mas foi a melhor opção que você fez. Foi sensato, foi sábio, e vai fazer muito bem para o Ian. Como uma mãe que tb fez repouso, sei o quanto a gente sente falta e se sente em falta com o filho mais velho, mas depois de pouco tempo eles não lembram disso, viu? E, às vezes, é uma oportunidade para eles ampliarem as conexões com outras pessoas da família e amigos, o saldo acaba sendo positivo.
Na torcida aqui, vai dar tudo certo!

Larissa

Que Deus continue cuidando de vocês!! Ele sabe de todas as coisas, por isso entreguemos tudo nas mãos Dele! Me deu um aperto no coração quando comecei a ler o post, mas ao terminar fico muito feliz que está tudo indo bem e com certeza o Ian vai nascer muito saudável trazendo mais amor e alegria para a família de vocês!! Tudo de bom, Gaby, se cuide.

Também precisei fazer repouso na gravidez da minha caçula, e não foi fácil. Chorava de pena da minha mais velha, que tinha só três aninhos e não entendia por que a mãe vivia deitada. Dez anos depois, lembro com carinho daqueles dias em que cuidava do meu amorzinho dentro da barriga… Que esses dias sejam leves, de paz e preciosos!

Janaina

Gaby, me emociono aqui lendo seu post. Acompanho seu blog fazem 6 meses (desde que decidi me mudar para o Canadá e busquei dicas na internet) e sinto que já conheço Toronto e já amo a cidade lendo suas postagens. Isso também me faz sentir como se te conhecesse, talvez por todas as emoções que seus escritos me fazem sentir. Desta forma sinto muito por este susto, mas fico tranquila em saber que nada de mais grave aconteceu. Te envio as mais positivas energias do universo e tenha certeza que após esse período você se tornará uma mãe e mulher… Read more »