Eu sou Brasileira, mas meus filhos sempre serão Gringos

A Copa do Mundo que passou foi a primeira do meu filho Thomas (e que bom que ele é pequeno ainda e certamente vai esquecer do que aconteceu). Nós não somos fanáticos por futebol – nem time temos – mas como bons Brasileiros compramos uniforme da seleção , bandeirinha e fizemos questão dele “assistir” todos os jogos do Brasil. Ele não se interessou muito por futebol; aliás, ele nunca gostou de futebol – e olha que ele já fez aula e tudo. Não adiantou forçar ou “liberar a TV”. Eis que em meio aos jogos da Copa ele chegou em casa falando sobre Baseball, que tinha jogado com os colegas na creche e estava feliz. Falou alguns termos em inglês (que eu nem sei se existem e estão relacionados ao jogo) e estava animado. E ai a ficha caiu.

A ficha caiu que por mais que eu e o pai dele sejamos Brasileiros, que a gente fale somente português em casa, que eu AME pão de queijo e brigadeiro, que eu tenha livros do boi de mamão, que eu seja super fã da Turma da Mônica e que fique super feliz quando vamos a um mercadinho que vende produtos brasileiros a realidade da vida dele será outra. Por mais que eu tente passar um pouco do que eu sou – e de como fui criada – meus filhos terão uma criação diferente, pois vivem em uma cultura diferente. Não quero dizer que eles não terão um pouco do Brasil – e eu acho que o Thomas tem MUITO – mas eles sempre serão gringos.

É muito engraçado ver o choque de realidade que a chegada de um filho traz para as famílias de imigrantes. Ser imigrante não é fácil e muitos Brasileiros sofrem por estar longe do Brasil e da cultura Brasileira – o que, preciso dizer, nunca foi o nosso caso pois a saudade que sentimos mesmo é das pessoas que estão no Brasil. Mas, como disse, tem gente que sofre de saudade do Brasil e não consegue aderir aos costumes do país que estão. Estas pessoas tem globo internacional na TV (ligada 24 horas), assistem o sagrado futebol aos domingos com churrasco e cerveja, sonham com a praia e a comida do Brasil todos os dias e acham defeito em tudo que acontece no país onde estão, sempre lembrando que “no Brasil as coisas seriam diferentes”. Mas ai estas pessoas tem filhos e por mais que eles não queiram a cultura do país que eles vivem vai aparecer dentro de casa, não tem jeito. E os pais vão ter que aprender novas brincadeiras, costumes, termos, alimentos, regras, contos infantis e um novo universo irá se abrir… um universo menos Brasileiro e menos familiar.

Eu acredito que não somente os pais são responsáveis pela criação dos filhos e que há um conjunto de fatores que envolvem este desenvolvimento, sendo que o meio exerce um importante papel. falando especificamente do Thomas – já que o Ian tem apenas 10 meses – meu filho vai para creche desde que tem 11 meses de idade. Fica lá 8 horas por dia, todo dia de semana, a quase 3 anos. Convive com crianças de várias nacionalidades, de várias classes sociais e de várias culturas (e isso é a melhor parte de viver em Toronto como eu contei para vocês neste post aqui). Agora que ele está maior já tem play dates e vai a festinhas de amigos da creche, convivendo com eles também fora do ambiente escolar. E tem os vizinhos, os amigos dos colegas de trabalho do papai e da mamãe. E a cada dia que ele convive mais eu tenho a certeza que esta mistura de culturas fará bem para ele. E que quando crescer ele vai pensar e agir diferente de mim, que sou Brasileira e vivi a maior parte da minha vida no Brasil.

Também acho que, de certa forma, o que meu filho aprende de diferente passa a repercutir no tipo de mãe que eu me tornei. As crianças aqui não tem frescura e não tem pessoas que fazem tudo por elas como vejo no Brasil. Elas são mais independentes e são crianças “por mais tempo”. E eu acabo sendo uma mãe mais paciente e que espera meu filho fazer as coisas por si só, mesmo que isso demore um pouco. Elas também não tem distinção de classes sociais pois as escolas (em sua grande maioria públicas) possuem crianças de alta e baixa classes, e de diferentes cores e raças. E isso me dá um alívio enorme pois sei que meu filho não está sendo criado em uma bolha. E eu como mãe incentivo este respeito pelas diferenças e até estimulo a curiosidade dele. As comemorações – na creche ou aniversários – são simples mas igualmente especiais. As roupas não tem marca. As brincadeiras são simples. Todas as estações são festejadas (até o inverno). Tudo é muuuuito mais simples.

O que eu prezo muito é o falar português: quero que meus filhos possam se comunicar com seus avós, tios e com a família no Brasil e que eles consigam entender o que está acontecendo quando visitamos o local. Claro que dói pensar que um pouco da minha infância e de tudo que vivi não será repassado para os meus filhos, já que eles vivem em um ambiente tão diferente do que eu vivi. Mas amor – que eu tive demais – eles também irão ter e vejo que dentro do possível a gente consegue sim inserir um pouco do que tínhamos no Brasil. Meus filhos não serão nunca tão Brasileiros quanto eu sou, mas sentirão orgulho do Brasil que criou seus pais e de tudo que lhes foi passado, isso eu tenho certeza.



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