A melhor parte de morar em Toronto

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Aidéia para escrever este texto surgiu depois que fiz o tour gastronômico no Kensington Market e curti muito, conforme contei para vcs aqui no blog. Curti tanto que não consigo tirar aquele passeio da cabeça. E não, não foi pela comida ou pelo local em si, mas por uma situação que aconteceu. Um dos lugares que visitamos foi o Livelihood Cafe, que é um lugar onde trabalham refugiados e minorias. E entre as pessoas que nos receberam estava Jasmine, uma refugiada Síria de uns 25-30 anos extremamente gentil e linda. Jasmine mostrou para a gente como tomar café é importante na sua cultura, fez um café delicioso – e super forte – passado na hora para a gente e falou do seu povo com um brilho no olhar.

Depois de sua apresentação o idealizador do Livelihood Project (que é o projeto social associado a este café) falou um pouco sobre tudo que estávamos vendo ali … e apresentou Jasmine. Contou que ela sofre de síndrome pós-trauma, que veio fugida para o Canadá e que seu irmão foi morto depois de ficar 3 semanas sofrendo tortura. Ele disse que Jasmine está cada dia melhor e que já faz aula de dança e consegue agora cozinhar (muito bem!). E ai ela olhou nos nossos olhos e contou um pouco do que passou, de uma maneira bem leve e respeitosa. Falou que tem sorte de ter vindo para o Canadá mas que tem muita saudade da sua terra. Que sonha com seu irmão, que não sabe como sua família está e que luta a cada dia para se adaptar e tornar o Canadá o seu novo lar.

As palavras dela me tocaram profundamente…. Thomas dormia naquele momento (calmo, sereno, seguro) e aquela cena me tocou muito. Claro que eu vejo meu filho dormindo todos os dias, mas a associação entre a guerra de um lado do mundo e a tranquilidade que temos (e muitas vezes não damos valor) pesou muito em mim. Um peso enorme. Comecei a pensar em todas as crianças que nasceram em lugares com guerra e muita pobreza, lugares que não trazem calma, serenidade e segurança como meu filho possui. Me senti grata e ingrata ao mesmo tempo. Grata em viver em um país tão maravilhoso, em ter tido uma bela infância, pais maravilhosos, em não ter sofrido nada de ruim na vida, em ter minha família toda bem. E ingrata por realmente não fazer nada para mudar o mundo, em achar que fazendo “a minha parte como cidadã do mundo” (i.e. ser correta, não roubar, pagar as contas) eu estou fazendo o necessário. Eu senti no meu coração que isso não é o suficiente… eu senti que eu preciso fazer mais. E ai voltou o sentimento de gratidão, de poder vivenciar isso, ouvir estas histórias, cruzar por todas estas pessoas, pessoas estas que eu nunca conseguiria cruzar se não estivesse aqui em Toronto.

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Voltei para casa refletindo muito e o que mais vinha na minha cabeça, agora que eu sou mãe, é como eu me sinto aliviada do meu filho estar vivendo em uma cidade como Toronto. E não, não é por aqui ser um país seguro e com ótima qualidade de vida. O que me deixa aliviada de criar o Thomas em Toronto é saber que ele vive em uma cidade onde várias culturas se misturam e se respeitam, onde ele vai poder ouvir diferentes opiniões e histórias sobre um determinado assunto, onde ele vai ter contato (real) com minorias e onde ele vai poder encontrar grupos (como o Livelihood Project) para poder fazer a diferença no mundo. Eu realmente quero criá-lo para isso, para o mundo, e não para mim ou um seleto grupo da sociedade.

Eu sempre busquei uma resposta do porquê eu querer tanto morar fora do Brasil. No começo eu achei que era para aprender inglês e ter uma vivência internacional. Ai veio meu PhD e eu aprendi tanto (não somente sobre a minha área mas sobre conviver com pessoas, desafios e a vida) que eu achei que era essa a minha resposta. Durante meu PhD eu perdi dois bebês e achei que essa seria a minha sina – vir para Toronto para aprender a perder, esperar e acreditar. Também tem o blog – que fala basicamente da minha vida em Toronto – e todas as pessoas que eu busco ajudar e incentivar. Achei que poderia ser isso também. Mas depois daquele dia eu percebo que ainda não encontrei este porquê, mas estou muito perto dele. Eu quero MUITO fazer diferença no mundo, não somente no meu mundo ou no mundo das pessoas que eu amo.

O título do texto é “a melhor parte de morar em Toronto” e a resposta certamente é estar perto desta mistura de pessoas, sentimentos, culturas que faz com que a gente reflita sobre o lugar que ocupamos no mundo e o lugar que queremos ocupar no mundo. Esta vivência e esta reflexão é o maior presente que Toronto pode nos dar.



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Camila

Oi Gaby,
Estou prestar a fazer uma viagem de um mês para o Canadá, ainda não decidi se Toronto ou Vancouver.
O seu blog foi sem dúvida o melhor “guia prático” que achei na web até agora :)
Você tem uma opinião para me dar? A ideia é realmente focar nos estudos (meu inglês é intermediário), Toronto ou Vancouver? :/

Ana Regina

Lindo e emocionante texto. Fica a reflexão

Juliana

Gaby, sua reflexão certamente instigou o pensamento de outras pessoas. Me coloco no seu lugar, sinto de fomar parecida, ainda preciso me movimentar para fazer uma pequena diferença, mas não menos importante. Obrigada por compartilhar o seu sentimento conosco. ❤️

Ana Paula

Amei seu texto. Também tenho 2 filhos e reflito bastante sobre como ajudar a mudar este mundo. No Brasil fazer está tentativa de ajudar é muito difícil.
Espero q vc consiga encontrar suas respostas. Ainda procuro as minhas.

Nai Maciel

Perfeita reflexão! Emocionante sentir tudo isso, mesmo.
Obrigada por compartilhar, mais uma vez.