Sobre não ter saudade do Brasil

Qual o único motivo que te faz querer voltar para o Brasil? Para muitas pessoas a resposta é fácil vem rápido na língua: saudade. Saudade da família, de bater papo com os amigos, de ir para praia, de curtir uma pelada e um churrasco de domingo com a galera, de almoçar no restaurante de frente para o mar, de comer a comida da mãe no domingo, de estar presente em todas as datas… para mim a resposta já foi essa.

Lembro de vir para o Canadá e ter saudade. Uma saudade muito grande, algumas vezes até doída. Saudade de pessoas, papos, comidas e encontros. Saudade de lugares familiares que eu conhecia durante toda a minha vida. Saudade de ouvir conversas na rua e entender o que as pessoas estavam falando. Saudade de ter sempre algum lugar para correr quando alguma coisa não saia como o planejado. Esta saudade sempre apertava em datas especiais: teve o primeiro aniversário longe da família, os aniversários das pessoas especiais, as festas de família nas quais só eu estava longe. Teve nascimentos, despedidas e momentos que não voltam mais e eu não poderei viver, porque não estava no Brasil.

O nosso primeiro ano de Canadá foi extremamente tumultuado: eu vim primeiro para cá e só 4 meses depois vieram Ju e Jojoe. Porém meu marido teve que voltar e ficar alguns meses no Brasil para dar apoio para sua mãe, já que seu pai havia falecido. Neste ano louco – e difícil – eu não tinha ainda um real entendimento sobre “estar longe”, porque nós íamos e víamos inúmeras vezes. Mas no nosso segundo ano no Canadá compramos nossa casa e o “viver no Canadá” começou a ser mais real. E foi ai que as coisas começaram a mudar…

Não, a saudade não mudou. Ela continuou e até aumentou. Como disse anteriormente, no primeiro ano fomos muitas vezes para o Brasil e por causa disso não fomos tanto nos anos seguintes. Quando passamos a ficar mais tempo no Canadá sentimos, obviamente, muita saudade. Lembro que ficávamos imaginando – e fazendo listas – do que iríamos fazer quando chegássemos no Brasil: encontrar os amigos, passar o dia todo na praia, comer no restaurante o nosso prato favorito, comer sushi com os amigos e papear até altas horas da madrugada e passear o dia todo curtindo tudo intensamente. E não foi isso que aconteceu. E não é isso que acontece todas as vezes que vamos ao Brasil.

O Brasil que a gente deixou quando saímos não é o Brasil que hoje está lá. O restaurante não existe mais ou, se existe, o prato que a gente amava não parece ser feito da mesma maneira. O trânsito das ruas mudou. Há muitos prédios novos. Ficar o dia todo na praia não faz mais sentido. Os amigas nem sempre conseguem nos encontrar e, quando conseguem, não podem ficar até tarde. Todas as pessoas mudaram. Eu mudei! Aos poucos eu fui percebendo que a saudade que eu tinha não era do Brasil em si, mas de um momento da minha vida. Momento esse que não volta mais.

E foi assim que essa saudade doída passou a ser algo mais agradável. Uma lembrança doce do que eu vivi no Brasil. A família começou a visitar e começamos a criar doces momentos fora do Brasil, talvez os momentos mais especiais que passamos juntos nos últimos anos. E ai eu comecei a refletir sobre o quão grata eu era de ter saudade da minha vida no Brasil e de ter vindo para cá não porque eu não gostava de lá, mas porque eu tive uma oportunidade de viver algo diferente no Canadá. Eu mudei muito nestes últimos 11 anos e fico feliz que as pessoas que eu deixei lá também mudaram. Tão bom a gente poder evoluir e aprender com o que acontece nas nossas vidas não é mesmo? Depois que eu percebi que não preciso ter saudade e sim lembrar carinhosamente do que eu vivi no Brasil e como eu toquei a vida de todos que estavam ao meu redor eu consegui abraçar mais a vida do Canadá e fui muito mais feliz aqui.

A foto deste post é do Canva Pro, que eu estou utilizando para fazer várias artes aqui no blog e nas redes sociais e amando muito.

1 Resultado

  1. Alberto disse:

    Muito bom sua colocação. A gente tem saudade do que fomos, do que vivemos. Esse tempo não volta.

    ‘Um homem não se banha no mesmo rio duas vezes’

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