10 perguntas sobre bilinguismo e PLH respondidas por especialistas da educação

Olá a todos! Nós do Português Lúdico pretendemos esclarecer neste post as principais dúvidas das famílias brasileiras que vivem mundo afora acerca do bilinguismo e do Português como Língua de Herança (PLH-POLH). Sabemos que são muitas as dúvidas acerca deste tema e estamos aqui para ajudá-los!

Para aqueles que ainda não estão familiarizados com o termo Português como Língua de Herança  (PLH-POLH), vamos pensar sobre isto? Língua de herança é aquela utilizada com restrições, limitada a um grupo social ou ao ambiente familiar. Desta forma, se trata de uma língua minoritária. O Português, por exemplo,  é uma língua de herança para os filhos de brasileiros que moram no exterior. 

Agora que definimos este termo, vamos ao que interessa? Sim, vamos responder às principais dúvidas que vocês compartilharam com a Gaby no Canadá lá no instagram dela, o @gabynocanada.

1. Mudei de país, e agora? Que língua devo falar com meu filho?

Se você foi morar fora do Brasil, para garantir que a língua de herança seja preservada você deverá falar com seu filho estritamente na sua língua materna. Se ambos os pais falam Português, ótimo! Se não, cada um deverá falar com seu filho no seu idioma, garantindo que a criança tenha em vocês a referência do idioma transmitido. Tudo se torna um pouco mais complicado quando os pais falam inglês entre si. Nestes casos a família deve então estabelecer uma política familiar adequada e garantir momentos de interação com a criança em língua Portuguesa.

2. Falar Português em casa pode atrapalhar o desempenho escolar do meu filho na escola (sendo a língua da escola o Inglês)?

Essa é uma dúvida muito comum. Ao migrar para um país que fale uma língua diferente da língua da família, os pais tendem a achar que precisam ajudar a criança no novo idioma para que ela tenha um bom desempenho escolar. Isso é na verdade um equívoco. A mente da criança é super absorvente e rapidamente aprenderá a nova língua. Pesquisas mostram que o fato dos pais usarem com seus filhos a língua predominante na sociedade (o Inglês) não garante que eles tenham melhor desempenho escolar. Falar em Inglês com seu filho contribuirá porém para que ele perca a fluência na língua da família, o Português.

3. As crianças devem primeiro ser alfabetizadas na língua da escola para depois iniciarem a alfabetização na língua de herança?

Não necessariamente. Pesquisas indicam que quanto mais forte e mais desenvolvida a língua de herança, melhor será o desenvolvimento na língua da escola. Na realidade, quando as línguas compartilham certas estruturas e o mesmo alfabeto, como por exemplo o Português e o Inglês, as crianças transferem as habilidades de uma língua para outra, o que ajuda no processo de alfabetização. É possível portanto fazê-lo simultaneamente. Mas não há regra para isso. O importante é saber que sem ensino sistematizado a maioria das crianças não irão se alfabetizar na língua de herança. Em algum momento a leitura e escrita precisarão ser trabalhadas com alguma dedicação.

A grande questão nesta pergunta é se a oralidade da criança na língua de herança está bem desenvolvida para começar a se pensar em alfabetização. Sem uma oralidade e conhecimento linguísticos bem desenvolvidos a alfabetização não deve ser prioridade. Mas se a criança tem um amplo conhecimento da língua de herança, ensiná-la a ler e a escrever em Português só trará benefícios. Se estiver em dúvida, nestes casos o ideal é sempre buscar a opinião e avaliação de um profissional.

4. É verdade que criança bilíngue demora mais a falar?

Pesquisas confirmam que crianças bilíngues não demoram mais para começar a falar do que crianças monolíngues. Crianças bilíngues se desenvolvem em ritmos diferentes, da mesma forma que as monolíngues, ou seja, algumas vão falar cedo, outras vão falar mais tarde.

Uma outra grande questão é que as crianças possuem um repertório X de palavras e quando neste repertório você inclui palavras em duas ou mais línguas, a variedade de palavras que esta criança fala por vezes parece ser menor do que em crianças monolíngues. Logo, uma criança bilíngue que fala ‘bola’ e ‘ball’ está trazendo duas palavras diferentes para o seu repertório linguístico, ainda que elas possuam o mesmo significado.

5. Será que meu filho ficará muito confuso se ele falar Português em casa, Inglês na escola e eu ainda colocá-lo em um programa de French Immersion?

O cérebro da criança é muito mais propício para aprender novas línguas do que o de um adulto. Crianças podem sim aprender mais de duas línguas sem necessariamente se confundir. A fluência numa língua sempre dependerá do investimento de tempo e oportunidades que a criança terá para exercitar o idioma.

Existem muitos casos de crianças que entram no sistema de French Immersion aqui no Canadá e já falam outras duas línguas (o Inglês e a língua da família, por exemplo).  É preciso apenas respeitar o tempo de cada criança em todo aprendizado.

6. Uma criança mais velha (acima dos 6 anos) que nunca aprendeu o Português iria se beneficiar com algum programa que promova o Português como Língua de Herança?

Toda criança pode se beneficiar do aprendizado de uma nova língua. A grande diferença entre o aprendizado da Língua de Herança e de uma segunda língua é a parte emocional que a língua de herança envolve, a conexão com uma cultura e a participação mais ativa da família na promoção deste idioma. 

O ideal é que os pais passem essa língua para os filhos e busquem programas para estimular e somar neste aprendizado. Quando a procura por um programa de apoio é adiada por muitos anos tudo se torna um pouco mais complicado. Vale ressaltar que, chega um determinado momento do desenvolvimento da criança no qual a exposição à Língua de Herança dentro de casa apenas pode parecer desinteressante. Nestes casos, é benéfico buscar grupos nos quais a criança possa se identificar e se sentir pertencente. 

Em sua maioria, os programas de Língua de Herança promovem uma imersão no idioma, pressupondo um mínimo de conhecimento prévio da criança e alguma conexão com a cultura brasileira. Estes programas não são direcionados nem estruturados para o aprendizado de uma segunda língua. É preciso, portanto, conversar com a equipe desenvolvedora do programa para entender se aceitam crianças sem conexão com a cultura brasileira e língua portuguesa.

7. O que fazer quando falo em Português e a criança responde corretamente, mas em Inglês?

Esta é uma situação muito comum que vemos ocorrer com muitos filhos de brasileiros expatriados. Compreender um idioma é uma função mais simples do que se expressar nele. Além disso, é muito comum os falantes de herança aprenderem o vocabulário utilizado no ambiente familiar e, quando não desenvolvem as habilidades linguísticas para além disso, sentem-se desconfortáveis em usar essa língua em outras situações. Às vezes a criança também opta pela língua local pois se fará mais entendida por todos, ou mesmo porque possui mais fluência. Isso não deve ser visto como um grande problema de imediato. Cada língua se faz importante no cotidiano da criança. Nestes casos, é preciso capacitar a criança na Língua Portuguesa para que ela se sinta confortável para se expressar com propriedade.

8. Porque crianças bilíngues comumente misturam palavras de idiomas distintos às vezes em uma mesma frase?

Este comportamento difere-se um pouco da pergunta acima. Na pergunta acima a criança se esquiva do Português totalmente ao responder ao adulto. Neste caso, ela responde em Português, mas acaba trazendo algumas palavras em Inglês. Entre bilíngues é comum a alternância de códigos, ou seja, usar duas (ou mais) línguas ao mesmo tempo. Um falante de herança pode passar de uma língua a outra em enunciados diferentes ou até mesmo no meio de uma frase, ou inserir palavras ou “pedaços” de uma língua quando está falando a outra. Isso não é algo exclusivo da criança e provavelmente acontece com você também.

Essa alternância não significa que o falante não seja fluente, pelo contrário: o que isso sinaliza é que o falante se sente à vontade com os dois códigos e passa de um a outro com facilidade para tornar eficiente a comunicação. O code switching faz parte da proficiência e da identidade linguística dos falantes de herança. Embora se deva incentivar o uso da língua de herança (no nosso caso, o Português), não devemos reprimir as ocorrências de alternância de códigos.

9. Em que fase da infância é mais importante focar no Português para que as crianças não esqueçam ou não deixem de evoluir neste aprendizado?

Esta é uma pergunta muito comum, mas a verdade é que não existe uma idade perfeita para isso. Se o Português é a língua de herança, o responsável que transmite aquele idioma precisa sempre focar nele como algo prioritário. Cientistas comprovam que entre 0 a 4 anos a capacidade de uma criança aprender línguas está no seu maior potencial. Contudo, estudos também comprovam que se pararmos de falar em um idioma com a criança ela poderá facilmente perdê-lo. Portanto é importante que o aprendizado da língua seja consistente. 

10. Como auxiliar meu filho a não perder a língua de herança e a desenvolvê-la bem?

Em primeiro lugar é muito importante que a criança tenha oportunidades de contato com o idioma. Quanto mais Português ela ouvir, mais ela compreenderá. Contudo, para o desenvolvimento da fala, é muito importante que a criança tenha oportunidades de interação ativa, isto é, participar de situações em que ela seja o sujeito que produza linguagem. 

A possibilidade de participar de uma comunidade de brasileiros fará toda a diferença. Se o Português for apenas a língua do papai e da mamãe, a capacidade desta criança desenvolver o idioma será limitada.  Portanto, participar de eventos, brincadeiras na casa de um amigo que fala português, falar com familiares por redes sociais, buscar projetos de incentivo ao PLH (POLH) ou aulas particulares é muito importante.

Listamos aqui algumas formas de exercitar e promover o Português como Língua de Herança: 

  • conversar com alguém (ouvir e responder);
  • ler ou ouvir histórias e ter que recontar ou discutir o que foi lido;
  • ouvir e cantar músicas;
  • falar com a família distante: narrar e descrever ações diárias e acontecimentos;
  • brincar com amigos que também falem Português;
  • jogar jogos que requeiram comunicação,  construção de palavras ou histórias;
  • assistir à TV, filmes, séries, vídeos diversos.

O Português Lúdico, assim como outras organizações de PLH, proporciona um espaço de interação social em Língua Portuguesa. Neste momento de pandemia estamos priorizando projetos online variados trazendo cantigas, parlendas, cirandas, jogos, folclore, artes e outros elementos da cultura brasileira. Sigam a gente em @portuguesludico para ter acesso a um e-book com dicas de manutenção da língua de herança e muitos outros conteúdos que permeiam o tema bilinguismo e língua de herança.

Esperamos que tenhamos esclarecido tudinho! No Português Lúdico nossa equipe é formada por três educadoras – Camilla França, Juliana Braz e Priscilla Mury – que estão há mais 10 anos trabalhando com educação bilíngue, desde o começo da nossa trajetória profissional. Há 4 anos estudamos e trabalhamos na área do Português como Língua de Herança (PLH-POLH). Nestes últimos anos, além do estudo na área de PLH , também vivemos na prática os desafios de uma família brasileira vivendo fora e conhecemos muitas famílias nesta posição. 

Se por acaso você ainda tiver alguma dúvida sobre bilinguismo ou PLH, não deixe de entrar em contato conosco! Vamos adorar poder trocar conhecimento e experiência! 

Por Camilla França, Juliana Braz e Priscilla Mury do Português Lúdico.

As fotos deste post são do Canva Pro, que eu estou utilizando para fazer várias artes aqui no blog e nas redes sociais e amando muito.

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