O que não falar para uma mãe expatriada que mora longe da família?

Hoje é dia de Projeto Mães no Canadá e o tema de hoje é mais um desabafo e uma reflexão sobre ser mãe expatriada e como as pessoas talvez não consigam entender todos os desafios envolvidos em relação a isso. Ser mãe já é desafiador e traz muita mudança para a vida de uma mulher. As mudanças são boas mas acontecem e podem ser ainda maiores para aquelas que não possuem uma rede de apoio e não estão no seu país de origem.

Quando somos mães no exterior estamos lidando com todas as coisas com que as mães em outros lugares também estão lidando – como privação de sono, amamentação, adaptação da vida com um novo membro, desafios, entre outros. Mas imagine que sendo mãe fora do seu país de origem você está passando por tudo isso em outro país, com novas normas culturais, com práticas médicas diferentes e nem sempre dominando a língua ou, mesmo fluente, não sabendo todos os termos deste “novo mundo”. Algumas coisas que você vê como importantes e baseadas naquilo que você aprender no seu país de origem podem não ser reconhecidas no seu novo país. Há a preocupação com a língua e o fato do seu filho entender sua cultura e querer estar próximo dela.

A maternidade em geral já é cheia de comentários e conselhos por todos os lados. Mas quando a realidade do país que estamos vivendo não é conhecida por todos, estes comentários e conselhos podem ser ainda mais desgastantes, conflitantes e desnecessários. Eu sempre sou da opinião de que quem sabe o que é melhor para o seu filho é a mãe e acho que esta informação é ainda mais válida quando os comentários e sugestões vem de pessoas que não moram no país onde esta criança está sendo criada ou não entendem os desafios que existem ao criar um filho fora do país de origem dos país. Quero deixar aqui claro que muitas vezes os pais escolhem ter os filhos fora do seu país de origem por vários motivos, mas mesmo assim esta não é uma escolha fácil e isso não significa que os desafios não irão surgir.

Depois desta introdução enorme eu fiz aqui uma seleção de algumas perguntas que recebi e que não achei agradáveis ou necessárias. Coloquei as perguntas em negrito e expliquei um pouco sobre cada uma delas, sendo que em algumas vezes coloquei as respostas que eu gostaria de ter dado – mas obviamente não dei – para explicar o porquê de ter incluído estas perguntas aqui.

Por que você não liga para a pediatra das crianças para perguntar sobre isso?

Eu acho que perdi o número de vezes que alguém no Brasil me questionou sobre ter o número da pediatra dos meninos e ligar para esta pessoa (no meio da madrugada inclusive) para perguntar sobre algo. Aqui no Canadá não temos o número do médico e na verdade, no primeiro ano de vida dos meninos, nem pediatra eles tinham. Íamos em nossa médica de família e adorávamos. As perguntas sobre o sistema de saúde daqui sempre me causavam ansiedade, especialmente com meu primeiro filho. A gente não sabe o que esperar no primeiro ano do bebê e essas perguntas e comparações com o Brasil nunca me fizeram bem.

Como vocês vão dar conta de tudo?

Uma outra pergunta super desagradável era em relação a “dar conta de tudo”e essa pergunta ainda é repetida, até hoje, mesmo depois de termos mostrado que sim, damos conta de tudo. Fato é que a cultura do Brasil faz com que as novas mamães dependam muito de um sistema de apoio. Sim, este sistema de apoio é importante e eu tive ele com os meus filhos (i.e. minha mãe e meu pai vieram para cá ficar conosco por alguns meses quando os meninos nasceram). Mas eles não ficaram para sempre e eles foram embora e nós nos viramos e demos conta. E ficou tudo certo. E está tudo certo. Nós sentimos falta da nossa família porque queríamos compartilhar momentos com eles, mas não porque queríamos que nossos filhos ficassem na casa deles quando a gente quisesse jantar fora ou tivesse uma festa até tarde. Isso não é parte do que eu e o meu marido queremos. A gente dá conta de tudo e isso na verdade nos une ainda mais e é uma das melhores coisas de morar fora do Brasil: o senso de fazermos escolhas (i.e. sermos pais) e conseguirmos tomar conta da responsabilidade que nós escolhemos.

Você não tem medo que o seu filho não seja fluente no português?

Eu pessoalmente não me incomodo muito quando as pessoas fazem perguntas sobre o bilinguismo dos meninos. Eu sou fascinada pelo fato de que eles entendem as duas línguas desde pequenos e conseguem se comunicar rapidamente com ambas, “trocando uma chavinha” na cabeça e falando inglês, português, português, inglês em um único contexto. Muitas das pessoas que me mandam perguntas sobre o assunto falam sobre meu “medo” deles não falarem o português. Eu nunca entendi esta pergunta e sinceramente até agora não entendo. Eu quero que os meninos falem português e para isso eu falo português com eles e tento manter a língua e os costumes brasileiros vivos dentro de casa. Mas não tenho medo e se por acaso eles não sejam fluentes na língua eu não vou passar meus dias lamentando. Eu sinto que agora que o Thomas está sendo alfabetizado na escola ele opta por falar mais e mais inglês e algumas vezes quando estou estudando com ele eu acabo falando somente inglês, porque fica difícil explicar no português. Meu filho mora no Canadá e o inglês será a sua língua de preferência e eu tenho que me acostumar com isso e não ficar com medo.

Os meninos não sofrem muito com o frio?

Uma das perguntas campeãs é essa, relacionada ao frio. Acho tão engraçado a preocupação que as pessoas que não moram aqui tem o frio, especialmente com os pequenos. Eu já escrevi um texto aqui no blog – deste projeto mesmo – sobre mitos ou verdades sobre cuidados com a saúde das crianças no inverno. A verdade é que as crianças nasceram aqui e são acostumadas e adaptadas com o frio. Meus filhos, por exemplo, sofrem MUITO é com o calor e a umidade do Brasil, pois não estão acostumados com ela. E se você vem para com a Canadá com seus filhos não se preocupem: crianças AMAM neve e irão se adaptar mais rápido que vocês. Então, ninguém sobre muito com o frio não, pelo menos não aqui em casa.

Deve ser muito triste criar seus filhos longe dos primos, avós e o resto da família?

Essa pergunta eu recebi algumas semanas atrás, quando estava celebrando o aniversário do Thomas de 5 anos em casa, somente nós 4. A pessoa viu a foto da festa linda que eu fiz e perguntou isso, dizendo achar triste não ter família por perto para compartilhar aquele momento. Eu respondi que em primeiro lugar mesmo se eu estivesse no Brasil eu talvez não tivesse min ha família por perto por causa da pandemia e da necessidade de manter as pessoas mais velhas (avós) protegidos por serem grupos de risco. Falei também do lado positivo de eu me sentir feliz em fazer algo somente para nós 4 e ter esta conexão tão especial com minha pequena família. Sim, eu sei que meus filhos não terão a amizade e a convivência que eu tive com meus primos, mas eles terão outras coisas que eu acredito serem muito válidas e importantes para eles. Não gosto quando as pessoas falam que a nossa escolha de ter filhos fora do Brasil é triste ou trará tristeza para meus filhos porque eu não vejo isso desta forma.

O texto ficou enorme mas eu poderia acrescentar mais umas 10 perguntas que eu não gostei de ter recebido, como por exemplo “Você consegue alimentar os meninos direitinho?” ou “Mas brincar assim solto no parque é seguro?”. Espero que tenham gostado do post e não deixem de ver a opinião das outras mães brasileiras que moram ao redor do Canadá:

Alessandra (Bathurst, NB) | Canadiando
Beatriz (Vancouver, BC) | Biba Cria
Carol (Mississauga, ON) | Minha Neve e Cia
Cassandra (Vancouver, BC) | Canada.br
Danielle (Toronto, ON) | Vidal no Norte
Livi (Toronto, ON) | Baianos no Pólo Norte
Mariana (Calgary, AB) | De Bem Com a Vida
Nayara (East Gwillimbury, ON) | My Family no Canada

4 Resultados

  1. Joice disse:

    Oi Gabi, td bem? Excelente texto! Escuto esses comentários e outros também quase toda semana! É difícil, expatriei ha pouco mais de um ano, vim com marido e uma filha pequena e em pouco tempo acabei engravidando e tendo meu segundo filho aqui fora do país…e o mais triste é que esses comentários em sua maioria vem de pessoas da família, isso me deixa tão fragilizada sabe? Mesmo que eu não teria mudado nada nesse 1 ano, sempre bate aquela culpa (mas no fim, a culpa viria no Brasil tb, sei disso pq minha 1a filha nasceu e foi criada la até os 3a).

  2. Elane Dutra disse:

    Ei Gaby! Boa noite.
    Excelente texto como sempre!
    Parabéns por ser tão segura de suas escolhas!! É isso aí rsrs.

    Obs.: como existe gente sem noção… ou seja… sem filtro.
    Até parece que quem está fisicamente próximo aos familiares são mais felizes do que os que não estão.

    * Penso que o importante é a conexão dos sentimentos verdadeiros.

    *** Infelizmente tem muito gente que vive próximo do familiares, mais por conforto do que por amor.

    Abraços Gaby!

  3. Carol disse:

    Isso mesmo Gaby! Uns comentários sem noção né?!
    O mundo precisa de mais empatia.bjss

  4. Nayara disse:

    Nossa, a pior de todas ( deve ser muito triste criar seus filhos longe da família).
    Adorei o texto Gaby, que atinja muitas pessoas e que parem de nos perguntar e falar o que não tem a menor necessidade.

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