Quando 1 + 1 não é igual a 2

O objetivo do blog sempre foi registrar a minha vida no Canadá, antes mesmo de ser uma fonte de dicas para vocês. E é por isso que eu sempre estou escrevendo textos pessoais, que retratam o que eu penso, sinto e tudo que estou vivendo nos diversos períodos da minha vida. E desde que o Ian nasceu eu não consegui parar para escrever sobre sua chegada, sobre a mistura de sentimentos que eu tenho sentido e sobre a doce loucura que a minha vida se tornou. Hoje ele está com 7 meses e meio e acho que chegou a hora de eu me abrir por aqui e deixar registrado um pouco de tudo que senti e sinto desde que meu novo amor chegou.

Eu lembro que quando Ian nasceu e eu fui liberada para vir para casa eu sentia um alívio, um alívio enorme. Este foi o segundo sentimento mais presente na minha vida naquela época. Alívio de ter meu bebê, alívio de ver minha família completa (e não ter que engravidar e passar por tudo aquilo novamente – porque eu não gostava de estar grávida), alívio de não ter que passar por UTI Neonatal como tinham me alertado, alívio de sair do hospital depois de 2 meses trancada por lá… E este sentimento de alívio sempre se mostrou muito forte e presente. Se o bebê não dormia eu sempre pensava “vai passar logo e que alívio ele está aqui comigo”. Se ele chorava eu me sentia “aliviada” dele estar chorando no conforto de casa (e não em uma UTI) e que tudo ia passar logo.

Pausa aqui para dizer que eu escrevi que o alívio era o “segundo sentimento” que estava mais presente na minha vida porque o primeiro foi amor. Um amor que tomou conta de mim já na primeira semana de vida do meu pequeno. Com o Thomas levou um tempo para eu me acostumar a ser mãe e para este amor absurdo tomar conta de mim, mas com o Ian foi instantâneo e avassalador. Ele nasceu e boom: me apaixonei por completo.

Bom, continuando: o sentimento de alívio de ter passado pelo que passei e ter tido um final feliz (isto é, um bebê saudável nos braços) se fazia forte na minha vida, diariamente, e justificava toda a loucura que estava sendo ter um bebê em uma casa já com um peludo e uma criança. E este alívio “me ajudou” até os 3 meses de vida do Ian, quando a gente acha que tudo – cólica, choros, sono – iria melhorar. Mas não melhorou.

O Ian sempre foi muito diferente do Thomas. Thomas era um bebê independente, que dormia bem sozinho, mamava o que dessem para ele (peito, fórmula), chupava chupeta e se divertia sozinho. Ian é um bebê extremamente dependente, que ama ficar no colo e não consegue ficar muito tempo longe de mim. Eu achava que isso era uma “fase” e que após os 3 meses ele iria “melhorar”. E isso não aconteceu. Ele continuou querendo dormir só comigo, mamar a cada hora, ficar no colo o dia todo… e o cansaço me pegou. Me pegou de tal jeito que eu não me reconhecia mais. Não reconhecia a Gabriela mãe, mulher, amiga… vivia exausta e com um bebê no colo. Foi ai que eu me dei conta de que o Ian não era igual ao Thomas e que ter mais um filho não seria ter dois filhos… a coisa era diferente. 1 + 1 não era igual a 2. E isso me fez sofrer.

Eu sofria por não conseguir ser quem eu era antes (produtiva, feliz, cuidadosa), sofria por não conseguir ter tempo de ficar com o Thomas e com Jojoe, sofria por não dar atenção para meu marido, sofria por estar sempre cansada para cuidar do Ian… o sofrimento me pegou e eu fiquei bem para baixo por uns dois meses. Não cheguei a ter depressão, mas acredito que foi por pouco. Não tinha ânimo para nada e eu só queria poder ter um tempo para mim e para os outros, como tomar um banho demorado sem ter que voltar correndo para um bebê desesperado. Quando a gente vê as mães falando isso pode achar exagero, mas não é. É real! Há momentos que você só quer fazer xixi com calma e isso não é possível.

Mas ai o tempo veio, o curso do Bebê Dorminhoco aconteceu na minha vida (vou fazer um vídeo depois sobre isso), muito amor e paciência continuaram e hoje o sofrimento passou, o amor está cada vez mais forte (por mais impossível que isso possa acontecer) e a gente leva um dia após o outro, entre altos e baixos. No meio de tudo que tenho que fazer continua sendo difícil achar tempo para a Gabriela antiga (ou será que aquela Gabriela não existe mais?) mas nós já encontramos uma rotina que funciona para a nossa família, um bebê que dorme sozinha e estamos cada dia mais feliz e realizados.

Eu quis escrever este texto aqui para mostrar que foram meses tensos e que apesar de belas fotos e de uma história com final feliz isso também aconteceu aqui em casa, mas conseguimos passar por isso e estamos bem. 1 + 1 não é igual a 2 (é muito mais trabalho que eu poderia imaginar e muitos outros sentimentos envolvidos) e certamente o amor que tenho por eles não pode nem ser calculado. Vale cada esforço. Vale cada noite mal dormida. Vale cada lágrima. Vale tudo.

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4 Resultados

  1. Glaucia fontao disse:

    Gaby, sei que não somos todas iguais mais os sentimentos e condições de nos Maes acaba sendo parecido. Não sei se o fato de ter perdido o primeiro bebê, se o fato de ter uma vida louca, não sei…
    A única coisa que sei com certeza é que a antiga Glaucia, aquela antes dos filhos não existe mais, não sei quanto amor e quanta dor cabe dentro de nós, mais com os filhos os dois vem com uma força imensa, a dor qdo eles ficam doentes, dor pelas incertezas e o amor ahhh esse parece infinito.
    Engraçado né que esses dias, na verdade sábado uma mãe que conheço das redes sociais perdeu a filhinha linda que lutou bravamente contra uma leucemia rara e vi que alguém postou que quando uma mãe perde um filho todas as mães perdem um pouco tb, isso me chamou muito a atenção pelo fato de termos sempre coisas em comum e que essas coincidências giram em torno do amor e da
    Dor…
    Nos conhecemos na escola superficialmente mais agora conheço a gaby mãe e estou adorando!!!!
    Bjs, luz e paz pra vcs todos!!!❤️❤️❤️

  2. Monalisa disse:

    Gaby,

    Dê graças a Deus que todo este “avalanche” tem sido com o seu segundo. Pois a vida te deu a oportunidade de ter dois filhos. Comigo, aconteceu com o primeiro de tal forma, que nem me imagino tendo outro filho. O meu filho fez 3 anos e meio e costumo dizer, que estamos no melhor momento de nossas vidas. Pq até os 3 anos, foi tudo muito dificil. Eu sei exatamente o que você está passando. Não é fácil lidar com um bebê mais dependente e suprir suas necessidades. Mas posso garantir que a gente aprende e eles também e tudo um dia melhora. Força!!!!!

  3. Juliana Bragança disse:

    Que lindo seu relato, Gaby! E de uma sinceridade tão amorosa… Parabéns pela sua família e por conseguir passar por esse momento tão complicado, nessas horas vemos que somos mais fortes do que imaginamos!

    • Mirian Cunha disse:

      Olá Gaby. sou Angolana e te acompanho já a muito tempo, sou mãe de 2 meninas. uma de criação e outra biológica de 1 ano e 8 meses. queria muito poder fazer mais um filho, mas todos os dias penso no trabalho, nas dificuldades, na dor ou seja tudo aquilo que uma mulher passa depois de engravidar, que na realidade é um trabalho, sentimento que nunca passa, mesmo quando forem grande o trabalho continua. isso me faz pensar muito em não fazer mais filhos, meu marido quer muito fazer, mas eu tenho muitas incertezas…. desejo-te muita força, saúde acima de tudo….

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