Mudanças que acontecem depois que você mora 5 anos no Canadá

Eu nem acredito quando paro para pensar que no final de agosto fará 5 anos que estou morando no Canadá. Eu até nem acho tanto tempo assim – porque conheço pessoas que já moram aqui a 10, 15, 20 anos, mas quando começo a colocar estes 5 anos nos contextos da minha vida, é sim muita coisa. Por exemplo, Jojoe fará 6 anos de vida e 5 deles foram vividos por aqui (este cãozinho está mais Canadense do que Brasileiro). Ainda, eu e meu marido iremos comemorar no final de 2015 8 anos de casados, sendo que mais da metade foram vividos (intensamente) aqui no Canadá. E acho que o melhor de todos os exemplos será o nascimento do nosso Thomas, que virá ao mundo em terras Canadenses e selará nossa vida por estas terras com chave de ouro.

Eu acho super legal escrever posts quando você comemora “aniversário” vivendo em outro país, pois você pode acompanhar sua evolução e também a evolução da sua vida. No primeiro ano eu escrevi um espécie de poema sobre nossa mudança (de cidade, de vida, de valores). No segundo ano eu fiz uma colagem com fotos de momentos especiais em Toronto e falei de como aqueles dois anos eram a “metade de um ciclo”, já que meu PhD eram 4 anos e, naquela época, ainda não tínhamos noção se iríamos ficar por aqui ou voltar para o Brasil. No terceiro ano estávamos viajando e o post veio bem atrasado (em setembro), mas é um dos meus favoritos. O post é bem pessoal e fala sobre tudo que passei no Canadá nos 3 anos que estava aqui, todas as perdas, as vitórias, os desafios. Reflito muito sobre a razão de ser uma nova pessoa: seria o tempo, as experiências, o lugar que estava. E por fim, no quarto ano fiz uma comparação com um post de 2010 sobre meus pensamentos em relação à Toronto, mostrando como mudei minha idéia sobre a cidade.

Para comemorar os 5 anos de Canadá eu resolvi escrever sobre algumas mudanças que aconteceram comigo depois de morar no Canadá por 5 anos. São pontos bem pessoais, mas acredito que muita gente vai se identificar. Vamos a listinha, espero que gostem:

Pedir desculpas para tudo

Os Canadenses tem mania de pedir desculpas para tudo, mesmo se eles estão certos ou se não fizeram nada de errado. Eu acabei adquirindo esta mania, e peço desculpas se a pessoa demorou para atender o telefone quando eu estou ligando (vai que estou incomodando), se estou mandando mais que um email para alguém do meu serviço (posso estar tomando muito o tempo dela), ou se vou pagar algo no supermercado com cash e moedas (coitada do caixa, tem que perder tempo contando tudo aquilo). E não, não pensem que eu sou louca ou que estou exagerando: depois de presenciar isso tantas vezes a cultura do “sorry” vai fazer parte da sua vida. Um exemplo clássico disso são os ônibus do TTC, que quando não estão pegando passageiros por algum motivo (mas rodando) mostram no painel da frente os seguintes dizeres: “sorry, not in service” (desculpe, não está em serviço).

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Ser mais resistente ao frio

Ta ai uma super mudança que acontece… e eu lembro bem quando morava em Floripa e reclamava quando estava 16C ou, meus Deus, quando o termômetro mostrava temperaturas de 1 dígito (o que acontecia raramente). Tá certo que as casas do Brasil são construídas para verão e você passa frio dentro de casa (o que não acontece aqui no Canadá, pois todas as residências possuem calefação), mas mesmo assim seu corpo se adapta depois de pegar 5 invernos com temperaturas negativas, e alguns dias com sensações de -30C e até próximo do -40C. Quando nos mudamos para cá eu não tinha medo do inverno, e quando ele veio para valer no primeiro ano morando aqui eu até gostei (pois era algo novo e eu estava tão empolgada com tudo que nem ligava). Mas ai veio o segundo, terceiro, quarto e quinto invernos e a coisa muda… você não está mais tão feliz e animada com os floquinhos de neve caindo, e até fica incomodada quando o frio está tão absurdo. Mas, não sei se por resistência e adaptação, você consegue lidar mais com o frio. Temperaturas negativas de 1 dígito já são tranquilas, e temperaturas positivas de 1 dígito são “dias quentes”. Você sai de casa mesmo, e quando está algo como -15C/-20C (o que é uma temperatura comum no inverno de Toronto) você vai “curtir o dia” – por exemplo, passear no lago ou caminhar na praia.

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Ser mais tolerante no trânsito

Este ponto é bem pessoal (não acho que meu marido concorde com isso), mas eu me tornei mais tolerante ao trânsito aqui em Toronto. Não que tudo seja perfeito e, especificamente em Toronto, há muito (muito) trânsito. Mas parece que as coisas fluem, eu não sei explicar. Mesmo com filas você sabe que vai chegar no destino em um determinado horário – geralmente mostrado nas placas de trânsito – e que as leis aqui funcionam (portanto se algum motorista for dar uma de engraçadinho, querer furar fila, etc vai ser pego). Aqui os motoristas também são mais pacientes, não buzinam e respeitam as leis. Um exemplo clássico disso é quando duas filas vão se juntar em uma: por aqui vai um carro de cada vez, de cada fila, fazer a fusão naquela nova fila. É estranho de ver, mas há muito respeito e isso me deixa sim mais tolerante, mesmo com o tráfego absurdo de TO.

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Dedicar mais tempo à família

No Brasil eu trabalhava todos os dias, das 8am-9pm e ainda, se precisasse, trabalhava nos finais de semana. Trabalho era prioridade e, por exemplo, se havia um aniversário ou uma data especial e eu tivesse que trabalhar, o trabalho vinha em primeiro lugar. Aqui não. Nossa vida mudou muito desde que nos mudamos, e eu e meu marido aprendemos que a família (eu, ele, Jojoe e daqui a muito pouco Thomas) tem que vir sempre em primeiro lugar (tá, meu marido anda desaprendendo um pouco nos últimos meses, mas acho que com a chegada do Thomas tudo vai voltar a ser o que era antes). Alguns exemplo desta dedicação a família: trabalho só até 5-6pm, em casa devemos curtir o momento juntos; se Jojoe está doente eu deixo tudo de lado para me dedicar a ele; durante minha gravidez eu sempre priorizo meu bem-estar (se estou cansada eu deixo para depois, se não estou me sentindo bem eu trabalho de casa); trabalhar no final de semana somente em casos extremos; datas especiais tem que ser comemoradas (e de preferência tirando um dia de férias para poder aproveitar sempre); etc. Ah, o jantar também é um momento super sagrado por aqui: e como chegamos cedo em casa do trabalho, jantamos cedo (6pm geralmente) e conseguimos cozinhar tudo com calma, conversar, ver TV, caminhar depois do jantar com Jojoe. Isso é dedicar mais tempo à família, mas também pode ser chamado de qualidade de vida.

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Aprender habilidades manuais antes pouco exploradas

No Brasil, em geral, a mão de obra é mais barata. Se você quer pintar uma parede, fazer algum trabalho manual específico, organizar uma festa ou montar móveis, por exemplo, você consegue pagar para alguém fazer isso para você. Mas não aqui (quer dizer, eu pelo menos não). Aqui o lema é DIY (do it yourself ou faça você mesmo) e eu me surpreendi com o que eu e o maridão (mais ele do que eu) sabemos fazer (especialmente agora com a chegada do Thomas). Acho que fazendo você mesmo você dá muito mais valor ao que está sendo feito, e se sente também bem melhor. Hoje a gente pensa em algo sempre com a idéia “como faremos nós mesmos”, e essa mudança é super legal.

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Aprender a ser turista em sua cidade

Morar fora do seu país de origem faz com que a gente curta cada coisinha diferente que acontece, seja fazer um picnic em um parque novo ou conhecer um museu diferente. Eu achei que com o passar dos anos eu ia me sentir menos turista por aqui, mas não. O que acabou acontecendo é que eu me surpreendo a cada ano com a variedade de lugares incríveis que Toronto possui, e acabei desenvolvendo uma sede por conhecer lugares diferentes e novos. Sempre que saímos de casa levamos a máquina e é assim que uma ida ao supermercado ou uma caminhada em um parque parecem passeios “fora de casa” e rendem belas fotos. Ah, e qualquer local aonde a CN Tower está de fundo rende uma bela foto (como a foto abaixo). Eu sou de Florianópolis – uma cidade linda – mas nunca a explorei como exploro Toronto (e não é por falta de lugares bonito lá em Floripa, mas acho que aqui eu aprendi a curtir a cidade que moro de uma maneira diferente).

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Aprender sobre diversas culturas, não somente a Canadense

Em Singapura não vendem chiclete, na Índia os cachorros não são domesticados e ficam soltos na rua, os muçulmanos fazem jejum durante o ramadã desde o momento que o sol nasce até o momento em que se põe (e não podem nem beber nem água), o ano novo dos Chineses é comemorado depois do primeiro de janeiro (este ano foi em 18 de fevereiro)… estas e outras curiosidades eu aprendi (com detalhes) depois de conviver com pessoas de outras nacionalidades. A multiculturalidade de Toronto é algo fascinante e até hoje eu fico impressionada como um lugar com tanta gente diferente consegue ser tão organizado. Durante estes 5 anos de Toronto eu aprendi que há muito (muito) mais do que aprendemos no nosso país, e que o mundo é realmente enorme. Confesso que fico super empolgada em pensar que meu filho vai viver em uma cidade assim, e espero que Thomas consiga tirar proveito de tudo isso e vire (realmente) um cidadão do mundo.

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Menos importância para bens materiais

Talvez este seja um tópico polêmico, mas como disse anteriormente são pontos bem pessoais. Morando em Toronto eu aprendi que não preciso ter móveis planejados no apartamento, a melhor TV, a geladeira do ano, as cortinas feitas sob medida do tecido mais caro da loja… eu aprendi a ter uma vida mais simples. Não me interpretem mal, eu tenho sim tudo (e sou muito feliz com minha casa e minhas coisinhas), mas não preciso ter tudo combinando e da última coleção. Minha casa é 99.9% da Ikea (a foto abaixo foi em 2010, escolhendo a mesa de jantar que compramos na Ikea), e eu adoro, acho super confortável e estou feliz com isso. No Brasil há aquela cultura de que a casa tem que ser toda linda, planejada e que “neste ano não vamos viajar pois vamos trocar os móveis”. Fico feliz que isso mudou na minha cabeça e que hoje viajar, aproveitar, explorar está muito acima do adquirir.

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Amar um país que não é seu, mas que acabou ficando com cara de casa

O último tópico é super clichê, mas é verdade: já amo o Canadá e considero este país minha casa. Não demorou muito para isso acontecer – acho que talvez no segundo ano aqui já começamos a perceber que ficaríamos felizes se ficássemos aqui – mas hoje não me imagino morando em nenhum outro lugar. Muitas pessoas me perguntam se iremos voltar para o Brasil, e a resposta sempre é “não sei”. Eu gosto de viver o momento e não ficar pensando no que iremos fazer daqui a 1,5,10 anos. No momento, iremos continuar por aqui e estamos muito felizes e agradecidos de termos escolhido um país que nos acolheu tão bem e que podemos chamar de home.

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E você? Já mora no Canadá a algum tempo e adicionaria algo na minha lista? Deixe seu comentário abaixo que vou adorar saber sobre suas experiências.



Comentários

Oi Gaby ! Adoro seus textos, suas idéias, leio e curto seus posts. Tenho uma filha que mora aí em Toronto há mais de 3 anos, e também adora a cidade, o país…eu já fui visita-la 3 vezes, e não vejo a hora de poder ir morar aí também ! Então, quem sabe daqui um tempo poderemos até nos conhecer, né ? Beijão !

[…] já tratei sobre este este algumas vezes aqui no blog, como no post mudanças que acontecem depois que você mora 5 anos no Canadá e no Quatro anos de Canadá. Para este tema eu resolvi fazer uma lista de 10 opiniões que eu tinha […]

Super me identifiquei com cada ítem do seu post. Também sou de Floripa e dia desses pensei como não conheci tantas coisas lá e como desejo conhecer tudo por aqui. É muito bom morar aqui e espero continuar com este pique. Beijão “quirida” :)

Paulo Gustavo Pinheiro Antunes de Siqueira

Amo seu blog. Estive visitando de férias o Canadá em maio e amei, deu vontade de morar aí. Mas por enquanto não dá pra mim pq não tenho formação que dá pra conseguir emprego aí, sou formado em direito trabalhei como advogado por 22 anos, e agora sou servidor do TJRJ. E nem sei se aguentaria – 15°! Sou autêntico Carioca, conhecido Brasil a fita por achar 20° muito frio. Moro no Rio de Janeiro. Bjs.

Não vamos esquecer dos quilinhos extras que ganhamos vivendo no Canadá.