Falando um pouco sobre a vida acadêmica.

Um emprego na área acadêmica irá consumir tanto sua vida e interferir em todos os aspectos dela, que é por isso que usa-se a expressão “vida” acadêmica.

Foi assim que meu Professor começou sua aula semana passada. Depois desta frase – na minha opinião aterrorizante – ele perguntou quais de nós achávamos esta afirmação correta, ou errada. E eu, impulsivamente, levantei a mão com aqueles que acham que não, que a vida acadêmica não irá consumir tanto minha vida e que há sim uma maneira de separar a vida acadêmica da vida real. Mas, depois de alguns minutos tentando argumentar, eu e meus colegas do “não” perdemos a razão.

Depois de todos os argumentos e de uma das aulas mais reflexivas que já tive comecei a pensar sobre minhas escolhas, e concordo que se você escolher viver no meio acadêmico a sua vida irá girar em função da Universidade sim: suas férias serão relocadas para quando houver uma conferência, seus amigos serão seus colegas de trabalho, sua conversa será sempre associada a algum dado estatístico, as pessoas que não te conhecem irão te olhar diferente sabendo que você tem algum tipo de diploma de pós-graduação, sua vida social e festas irão ser marcadas em semanas sem provas ou trabalhos importantes a serem entregues, seu melhor amigo será sim o SPSS, STATA, SAS ou similares, sua vida não conseguirá ficar tranquila sem acesso a internet… e por ai vai.

Não dá pra negar: você sabe que depois do mestrado virá seu Doutorado e, depois dele, o seu Post-Doc… este é um caminho inevitável e que irá guiar suas escolhas e as escolhas da sua família por pelo menos 8-10 anos. Serão intensos anos de descobertas, de conquistas, de derrotas, de MUITO aprendizado e de muito esforço. Um esforço que será recompensado quando você receber um email com a notificação de que seu artigo foi aceito para publicação em uma revista “A” Internacional, quando alguns dos seus trabalhos forem citados por trabalhos de outros autores, quando você receber um prêmio por algumas de suas pesquisas, quando algum aluno seu o elogia, ou quando você fica estupidamente feliz por ver que seus grupos apresentaram diferenças estatisticamente significativas após análise estatística. O que acho mais desafiador, e ao mesmo tempo tentador em relação à vida acadêmica, é que ela lhe proporciona viver em diferentes locais, de diferentes maneiras, em busca de conhecimentos diversos. É como se o mundo estivesse aberto, aceitando todas as suas idéias; como se você “não soubesse para onde está indo, mas soubesse que está a caminho”.

Não dá pra negar que escolher estudar pelo resto da sua vida tem lá seus sacrifícios. Mas a vantagem de estar em contato com o conhecimento, com pessoas de diferentes idades e idéias, e com o mundo (literalmente) é assustadoramente fascinante.



  • 8 Responses

    1. Letícia Giacomin disse:

      O post veio bem a calhar, tive até que mostrar a frase à minha orientadora. Ela, que já vai pro segundo pós-doc ano que vem, disse que concorda, mas que a vida dela não teria o menor sentido se fosse diferente. Eu também concordo, a academia consome a gente. Ainda mais agora com o trabalho na universidade e fora dele (sim, sou louca…) percebo o quanto é a academia que toma meu tempo. Todas as manhãs e as noites estão ocupadas por atividades acadêmicas, o trabalho fora é só à tarde, os finais de semana são programados para escrever e ler tudo que vc precisa para a semana que virá – e que, muitas vezes, vc nem dá conta.
      Nessa minha experiência de mestrado, que já está quase acabando, sinto que é como se nunca estivéssemos prontas para a academia. As mudanças são rápidas, as leituras também, sempre há algo novo e parece que não temos tempo de acompanhá-las. É mesmo uma loucura, não teria como nomear de outra forma a não ser VIDA mesmo. Às vezes eu penso que nunca mais vou voltar a essa vida, que não quero nem saber do doutorado e que vou é fazer Direito de novo. A educação é uma área muito sofrida, principalmente aqui no Brasil, então encontro um monte de pedras no caminho. Ainda mais porque trabalho com a gramática, algo que todos os alunos abominam na escola. Mas é isso mesmo que vc falou, de repente chega na sua caixa de email um recado de alguém muito importante da sua área elogiando o seu trabalho e te estimulando e faz você perceber que essa vida vale a pena.

      A distância, a correria, a falta de tempo, tudo isso é ruim. Mas saber que tem pessoas torcendo pela gente e nos dando força para seguirmos em frente é o que nos dá coragem, a cada dia, de voltar à vida acadêmica. E é por isso que sempre digo o quanto me orgulho de ti e da coragem que tens que ir com força atrás do teu futuro acadêmico. És uma inspiração! Eu sou a afilhada mais orgulhosa que há, pode ter certeza!

      Opa, o comentário ficou grande! hehehe
      Beijão, muitasssssss saudades!!!
      Love u, henry!

      • Gabriela disse:

        ADOREi (como sempre) seu comentário Lê! E eu tenho certeza que você vai seguir esta vida: você tem o dom e eu sempre soube disso, desde quando brincávamos de “escolhinha” quando pequenas. A melhor parte do seu recado – e o que me faz ter certeza que é um caminho maravilhoso – foi quando você escreveu: “As mudanças são rápidas, as leituras também, sempre há algo novo e parece que não temos tempo de acompanhá-las.” E é exatamente isso: uma vida diferente, pouco monótona, aonde não sabemos o que nos espera. É isso que eu sinto e é isso que me faz amar esta vida!
        Sobre trabalhar e estudar, no mestrado acho que dá para equilibrar (eu fiz e consegui), mas no Doutorado IMPOSSIVEL. O jeito é arrumar as trouxas e se mandar para fazer algo em algum lugar que valorize a profissão: PhD Candidate!
        beijão e saudades

    2. anna maria lima de melo disse:

      É isso mesmo minha filha…ser otimista já é uma grande vantagem…sempre vemos o lado bom em todas as nossas decisões. Se é um caminho que decidimos por idealismo profissional tenho certeza de que poderão haver decepções sim, mas serão tão inferiores às vitórias que nem serão percebidas. Vá em frente e seja feliz. Amamos você e estaremos sempre ao seu lado.

    3. Helena disse:

      Gaby! Eu já ti falei inumeras vezes o quanto te admiro!! Você simplesmente pegou minha mente.. diminuiu uns anos (nao tenho nem mestrado e nem doutorado) mas como IC já vivo a um bom tempo essa vida de pesquisa.. incrivel como já vivo assim.. e sim minhas férias são os congressos kkkk, muito divertido.. vejo essa vida academica como uma escolha opção de vida.. e que por mais dificil e exaustiva que seja.. é muito divertida, revigorante e que acima de tudo te faz crescer diariamente, tanto como pesquisadora quanto pessoa, incrivel como cada conhecimento lhe faz repensar naquele jeito que você via algo ou julgava de uma maneira.. fantástico né? Tenho também muito que agradecer o Léo que me apoia muito e torce muito por mim..
      obrigada pelo post sinceramente eu adorei ler isso.. principalmente depois de hoje que comecei a sentar para COMEÇAR a definir minha pergunta de pesquisa para o Mestrado.

      beijaoooo =*
      😉

      • Gabriela disse:

        Sabia que vc ia gostar do post. Eu sei que vc pensa exatamente como eu! Ah, e boa sorte! Na minha opinião depois que a pergunta esta definida 50% do trabalho esta pronto! 🙂 Beijos e obrigada pelo comentário e pelo carinho!

    4. Ainda bem que você é otimista Gaby! hehe. Não vou nem contar o que essa vida acadêmica fez com a minha vida real para não desanimar os leitores.

      • Gabriela disse:

        Poisé Edilaine, cada um vê de uma maneira. Mas eu sou otimista sim, e também tenho ao meu lado alguém que me entende e me apoia. Isso é fundamental! beijão

    1. 16/11/2012

      […] como alguém que gosta de estudar. Mas eis que minha aula de quinta (sim, aquela que já comentei aqui no blog) meu professor – que adora esquentar discussões e desafiar seus alunos – […]

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