Tudo o que você sempre quis saber sobre o sistema de saúde no Canadá

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Hoje finalmente eu irei escrever para vocês sobre o sistema de saúde do Canadá e contar um pouco como ele funciona, além de dar minha opinião como usuária do mesmo. E olha, eu já o usei muito: foram no total 5 cirurgias, 1 cesária e vários atendimentos. Então eu sinto que tenho um “certo” conhecimento sobre o assunto. Por outro lado confesso para vocês que não me sinto 100% a vontade para escrever sobre o assunto, porque a minha experiência é no geral muito boa, e não pode ser de jeito algum generalizada. E, ainda, eu trabalho na área da saúde então meu conhecimento me ajuda muito a navegar no sistema de saúde canadense, que é mais impessoal do que o do Brasil, o que pode gerar muitas dúvidas aos seus usuários (falarei sobre isso abaixo). Novamente: esta é minha opinião sobre o sistema e algumas dicas para aqueles que estão vindo para cá ou já moram aqui e estão começando a usar este serviço.

Todos tem direito a serviços de saúde e são atendidos igualmente

O sistema de saúde canadense foi construído em torno do princípio de equidade, no qual todos os cidadãos recebem os serviços médicos e hospitalares necessários (universalidade) e são atendidos igualmente (equidade). E na prática ele funciona sim: não importa se você é pobre ou super rico, você será atendido igualmente por aqui. E ninguém é deixado para trás se não pode pagar pelo serviço. Não há hospitais para determinados segmentos da população e o atendimento é realmente igualitário. Eu tomo como exemplo o hospital que trabalho: eu faço pesquisar com pacientes e em um mesmo grupo temos donos de empresas e trabalhadores de obras, o que me deixa muito feliz. Vale falar que este princípio é uma das bases do SUS, o sistema único de saúde do Brasil. Ainda, o primeiro documento do Thomas foi sua carteirinha do OHIP, o sistema de saúde daqui da província de Ontário. Lá na hospital mesmo, logo depois que ele nasceu, o maridão foi fazer o documento enquanto eu ainda estava me recuperando da cesárea.

Cada província tem o seu sistema de saúde e suas regras

O sistema de saúde do Canadá é informalmente chamado de Medicare mas raramente você verá este nome na prática, pois cada uma das províncias e territórios possuem seu sistema e suas regras específicas. No total são 13 sistemas de saúde conforme esta fonte aqui, mas outra fonte diz que na verdade são 15 (adicionando os cuidados de saúde para veteranos e índios). Como falei anteriormente aqui em Ontário o nome do sistema de saúde é OHIP. Se você clicar aqui verá uma página com todas as províncias e territórios e links para você acessar o sistema de saúde de cada local.

Quando fiquei sabendo sobre esta informação – que cada província tem as suas regras – inevitavelmente veio na minha cabeça a seguinte pergunta: qual será o melhor sistema de saúde? Pesquisando na internet eu encontrei vários textos e opiniões sobre o assunto (como este) e a resposta é sempre a mesma: depende. Isso mesmo, depende do que você busca naquele determinado plano de saúde. Se pensarmos em filas de espera para ver especialistas, Ontário é a província com as menores filas, seguido de Quebec e Alberta. Se pensarmos na falta de médico, a província de Quebec é a pior, já que 26% dos seus residentes não possuem um médico de família. E por ai vai. Se o tipo de cobertura de saúde é algo que influencia na decisão do local onde você vai morar vale a pena pesquisar bastante e ver qual província possui a melhor cobertura para você e sua família.

Uma coisa importante a ser falada aqui é a portabilidade, ou a capacidade de mudar de cobertura de saúde ao mudar de província. Quando você muda de uma província para outra a mudança da cobertura da saúde demora 3 meses para ser efetuada – e durante estes 3 meses a sua província antiga é responsável pelos seus gastos com saúde.

Benefícios suplementares como medicamentos e dentistas geralmente não são cobertos pelo sistema

As províncias e territórios fornecem cobertura para certos grupos (idosos, crianças e residentes de baixa renda) de serviços de saúde que geralmente não são cobertos pelo sistema de saúde financiado publicamente. Esses benefícios de saúde suplementares geralmente incluem medicamentos prescritos fora dos hospitais, cuidados dentários, cuidados com a visão, equipamentos médicos e aparelhos (como próteses e cadeiras de rodas) e os serviços de outros profissionais de saúde, como fisioterapeutas. O nível de cobertura varia de província para província. Aqueles que não se qualificam para estes benefícios complementares sob planos governamentais pagam por esses serviços diretamente ou através de planos de seguro de saúde privados. Muitos canadenses através de seus empregadores ou por conta própria estão cobertos por seguro de saúde privado e o nível de cobertura fornecida varia de acordo com o plano adquirido.

A nossa experiência é a seguinte: o serviço do meu marido fornece para ele um plano de saúde privado que nos dá direito à dentistas, medicamentos e outros serviços de saúde. Vamos no dentista de 6 em 6 meses fazer limpeza dos dentes e o seguro cobre totalmente. Porém quando meu marido preciso fazer algo mais no dente (não lembro o que foi) o seguro só cobriu uma parte e tivemos que pagar o restante (que foi algo entre 20-30% do valor total). No caso dos medicamentos nós pagamos uma taxa muito pequena. Por exemplo, quando estava grávida a minha médica me prescreveu vitaminas para gravidez que se eu comprasse sem o segura sairia algo em torno de $45-50 mas eu pagava menos de $5. No caso de outros profissionais, o nosso seguro tem um limite de valor que podemos usar para tratamentos com eles. E este valor inclui até massagens.

Não há nenhuma conta ou nenhum pagamento direto para os médicos

Os canadenses não podem ser cobrados por nenhum dos serviços que os médicos os fazem. Por exemplo, não dá para pagar por um atendimento para ter prioridade, ou pagar por uma cirurgia que você quer fazer. Ainda, se você quer ver um especialista mas não tem o encaminhamento de um médico de família isto não é possível (explicarei melhor quando falar sobre a importância do médico de família). Em algumas províncias os médicos podem cobrar uma pequena taxa ao paciente por consultas perdidas, por atestados médicos e por prescrição de medicamentos feitas por telefone – todos os itens para os quais um médico não recebe pagamento da província.

Em todas as cirurgias que já fiz – e olha que o número não cabe em uma mão – fui super bem atendida e não precisamos pagar nada (nenhuma conta ou “surpresa” na hora da alta). Na verdade, quando tive o Thomas o quarto do hospital era compartilhado e como o seguro do marido só cobre semi-privado e nós queríamos privado pagamos a diferença, que foi $50 por dia. Lembro que perguntamos 2x para ter certeza que o valor estava certo, pois achei super barato. Não pagamos medicamentos, comida e qualquer tipo de atendimento que eu tive.

O importante papel do médico de família

Médico de família é uma especialidade médica caracterizada pela atenção integral à saúde ou atenção básica à saúde. Aqui no Canadá é o médico que você vai quando algo não vai bem (e não é uma emergência, porque se for você vai obviamente direto ao hospital). É o médico de família que vai conhecer seu histórico, vai fazer check-ups e pedir exames e vai te encaminhar para os especialistas. É, na minha opinião, a figura mais importante do sistema de saúde canadense, pois tendo um bom médico de família você pode ser encaminhado para os melhores especialistas e receber os melhores encaminhamentos. E é o seu médico de família que fará um “primeiro diagnóstico” e, novamente, irá te encaminhar para o especialista. Se ele achar que não há nada errado ele não irá te encaminhar e pode ser que você não descubra algum problema ou não trate de algo que deveria ser tratado.

Muitas pessoas me escrevem perguntando como eles podem fazer para conseguir um médico de família. Em primeiro lugar se você estiver aqui, não tiver médico de família mas precisar de uma consulta a dica é visita uma Walk-in clinic, que é uma clínica que aceita pacientes sem horário marcado. Durante esta consulta você pode falar para o médico que não possui um médico de família e, se gostar deste médico, pode perguntar se ele está aceitando novos pacientes. São poucos os médicos que aceitam pacientes novos mas já ouvi histórias de ótimas indicações. Em segundo lugar você pode pesquisar sites online com notas dos médicos. O blog Baianos no Pólo Norte tem um texto bem completo com uma lista de vários websites onde você pode procurar por médicos de família.

A nossa experiência foi ótima: quando chegamos aqui – em 2010 – meu chefe (que é médico) perguntou se eu e meu marido já tínhamos um médico de família. Eu lembro que nem sabia o que era este tal médico de família. Ele me explicou a importância deste profissional e comentou que tinha 2 ex-alunas que eram muito boas e estavam aceitando novos pacientes. Escolhemos a que possuía acesso mais fácil e estamos com ela desde então. Demoramos um pouco para entrar em contato e lembro que quando entramos ela estava com a lista de pacientes já cheia, mas quando comentei do meu chefe ela fez questão de nos aceitar (ufa!). E não é a toa, ela é maravilhosa. Sempre nos indicou para os melhores especialistas e sempre cuidou muito bem de mim em todo o meu caminho para me tornar mãe. Ela é tão boa e confiamos tanto nela que hoje ela não é só a minha médica e do Juliano, mas do Thomas (isso mesmo, Thomas não tem uma pediatra mas uma médica de família). E a experiência de ter ela cuidando do nosso filho é ótima.

Os médicos não trabalham para o governo

Uma das características que me fez entender o porquê do sistema de saúde daqui funcionar bem é que os médicos são trabalhadores independentes, não empregados do governo. O Canadá tem um sistema de saúde financiado publicamente, mas a grande maioria dos médicos não trabalham para o governo. Os médicos trabalham por conta própria, o que significa que eles podem determinar suas próprias horas e local de trabalho, além de serem responsáveis ​​por pagar seus empregados, pelo espaço que atuam (consultório) e outras despesas gerais. Os médicos ganham dinheiro cobrando o governo provincial pelos serviços que prestam aos pacientes. E é por isso que muitas vezes você vai em clínicas e fica impressionado como tudo lá é arrumado e lindo – pelo menos as que eu vou são assim – e não consegue entender bem qual a relação daquilo com um sistema de saúde público.

Quem pode usufruir do sistema de saúde canadense?

A resposta à esta pergunta depende de qual província você está falando (clique aqui e acesse a página da província que você está procurando para ver todas as informações). No caso de Ontario (OHIP) você pode ver todas as categorias para ser elegível clicando aqui. Em resumo, se você é um cidadão canadense, residente permanente e imigrante você tem direito ao OHIP. Se você possui visto de estudante você não tem direito ao OHIP. Se você tem visto de trabalho você só terá direito ao OHIP se você tiver um emprego full-time de no mínimo 3 meses, com um contrato de pelo menos 6 meses (caso este emprego seja temporário) e estar fisicamente presente em Ontário por um determinado número de dias por ano. Turistas e visitantes não possuem direito a usar o sistema de saúde daqui gratuitamente.

Extremamente eficaz, simples e impessoal

Se eu pudesse caracterizar o sistema de saúde do Canadá eu diria que ele é extremamente eficaz, relativamente simples e impessoal. E eu vou tentar explicar para vocês o porquê destas três características.

Em primeiro lugar o sistema de saúde é eficaz pois aqui você encontra os melhores e mais pioneiros tipos de tratamento, profissionais extremamente qualificados e tecnologia de ponta. Hospitais como Sick Kids e Toronto General são considerados os melhores do mundo. Há muita pesquisa e muita coisa importante sendo feita aqui. Eu sempre fico maravilhada quando ouço as histórias de sucesso relacionadas a tratamentos e cuidados com a saúde.

Eu considero o sistema de saúde daqui simples pois os médicos não pedem muitos exames ou prescrevem muitos remédios ou ainda fazem várias consultas e retornos médicos. Aqui o tratamento é bem diferente – e bem mais simples e direto – do que o do Brasil. Há diversas vantagens e desvantagens em ambos os lados e eu não quero entrar em detalhes para não gerar nenhuma discussão desnecessária sobre o assunto.

Por fim o sistema de saúde daqui é extremamente impessoal. E por impessoal eu quero dizer que o médico será seu médico e ponto, e não seu amigo e confidente. Ele não irá dar o número do seu telefone para você ligar ou mandar uma mensagem no Whatsupp para ele caso algo aconteça com seu filho que não está bem, ele não irá te aceitar no seu facebook ou irá contar detalhes da vida dele para você, ele não irá fazer perguntas pessoais e passar horas com você no consultório, ele não irá te encaminhar para um especialista se não houver necessidade (mesmo que você peça). Tudo aqui é mais frio, mais impessoal… e muitos brasileiros reclamam e não gostam de como o tratamento aqui funciona. Eu nunca tive problema com isso e sempre me apego à primeira característica citada – ser eficaz. Para mim, isso já é o suficiente.

Em geral a saúde aqui é muito boa e eu sou muito satisfeita com (quase) todos os tratamentos que tive. Os fatores que não me fazem ter satisfação 100% não dizem respeito ao sistema de saúde e poderiam ter acontecido em qualquer lugar. Espero que a informação apresentada tenha sido útil para vocês. Aguardo os comentários e a opinião de vocês.

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23 Responses

  1. Rafaela Grimm disse:

    Gaby, nem sei como agradecer a tantos posts úteis que seu blog traz, tem sido das minhas maiores ajudas!
    Aqui o que eu queria saber é que vamos chegar com 2 filhos, uma de 3 anos e um bebê (inclusive se chama Thomas tb!) e o marido vai com um visto que dá direito a trabalho full-time enquanto nós 3 vamos com visto de turista. O que quero saber é se qdo ele conseguir o contrato de trabalho dele e o OHIP, se tb como família nós vamos ter direito a ele ou se como vamos com visto só de turistas, não. Minha preocupação é com o acompanhamento de desenvolvimento das crianças, sabe? O que eu devo fazer até conseguirmos todos o ohip…

  2. gisele disse:

    Oi Gaby!
    Eu tenho uma dúvida, caso você possa responder. Eu faço tratamento aqui no Brasil com endócrino (ou seja um médico especialista). Como faria no caso essa transição no canada? O médico de familia provavelmente que dá continuidade ou ele encaminhará para um “endocrino canadense”? Digo isso porque aqui no brasil ao menos um clinico geral é bem diferente dessa especialidade, e para mim é necessário prosseguir com um profissional da área especifica. sabe se isso é possível e/ou como no canada? beijos 🙂

  3. Claudia Rapoport disse:

    Gaby, meu marido indo pro College com visto de estudante , nós ( eu, ele e a filha 5 anos) vamos precisar de um plano de saúde particular né? Vc tem um post sobre isso, sobre valores , ou saberia indicar um nome de um plano de saúde daí? Ou qual sua opinião? Obrigada

  4. Carol Fonteles disse:

    Oi Gaby,

    Vi um video seu no youtube em que fala que sua experiência com a cesárea não foi boa. Deixaram resto de placenta e vc teve que ser operada novamente. Eles tentaram forcar o parto normal? Verdade que aí as mulheres não podem optar pela cesárea livremente?

    Bjs,

    Carol

    • Ola Carol. Ninguém tentou forçar o parto normal não, eu queria ter meu filho de parto normal (na verdade nem me deram a opção de cesárea). Acho que a cesárea é só uma opção se há algum risco. Mas dependendo da sua relação com o médico vc pode dizer que a sua primeira opção seria cesárea e TALVEZ ele acate. TALVEZ. Beijos

      • Carol Fonteles disse:

        Obrigada, Gaby! Ja tenho uma bebe. Você saberia dizer se para segundo parto, tendo sido o primeiro cesárea, eles autorizam mais facilmente? Bjs

  5. Lais disse:

    Gaby, post maravilhoso!!! Muito muito muito muito obrigada!!!!!

  6. Amanda disse:

    Olá, boa tarde.
    Nossa, amei a postagem. Estamos nos planejando para estudar no Canadá, e essa postagem nos tirou muitas dúvidas. Mas gostaria de saber se você sabe dizer algo sobre como funciona o sistema de saúde para diabéticos no Canadá ?! Meu marido é diabético, por aqui o SUS fornece as medicações, mas estamos com muita dúvida sobre como funciona o sistema no Canadá.
    Abraços.

  7. FERnanda disse:

    Olá Gabi! Eu e meu marido tivemos direito depois de 3 meses de trabalho full time e não 6 meses.

  8. Saulo Maranhão disse:

    Apenas corrigindo uma informação, são 3 meses de trabalho full-time para tirar o OHIP e não 6. Tirei faz duas semanas com apenas 3 meses de trabalho.

  9. Fernanda disse:

    Perfeito o post Gaby! Além de esclarecedor conseguiu relatar as mesmas impressões que eu tenho sobre o sistema. É diferente. Nós brasileiros temos que estar com a mente aberta às diferenças na hora de acessar o sistema daqui. Mas sempre achei que a eficiência está em primeiro lugar. Sempre fui atendida com competência e dignidade. E acho o máximo toda vez que vou a uma consulta ou hospital ver pessoas de todo background tendo direito ao mesmo tratamento.

  10. Bruna disse:

    Gaby, agradeço muito pela sua opinião, meu marido tem asma, bronquite e outros problemas respiratórios, o que me preocupa muito de em caso de pneumonia e qualquer outra situação que ele venha a precisar que eu possa contar de fato com a saúde ai. Já que uma boa parte das pessoas só falavam mal do sistema de saúde….

  11. Aline disse:

    Muito bom seu texto Gabi, parabéns
    Minha filha tbm não vai ao pediatra nosso médico de família é quem cuida dela e como tbm sou da área da saúde, tenho muita admiração pelo trabalho dele pois consigo sentir melhor o quão excelente ele é.
    Minha experiência na gestação foi da mesma maneira que você descreveu, impessoal e prática porém extremamente eficaz. Sou muito feliz por usufruir desse “sus” que funciona.
    Abraços

  1. 24/03/2017

    […] fica com febre porque a maneira como a saúde daqui funciona é diferente do Brasil (leia mais aqui). Tive o Thomas no Canadá, portanto nunca vivi na prática o papel de ser mãe no Brasil mas pelas […]

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