Clichês da vida de mãe

Ana Correa | 2016

Hoje eu vou abordar um tema que eu ando louca para escrever aqui no blog: a maternidade. Quem acompanha o GNC e me conhece um pouco sabe que o intuito do blog não é ser um guia de viagem mas um local onde eu descrevo a minha vida canadense e tudo relacionada a ela. E é por isso que eu quero começar a escrever mais posts pessoais, falando sobre diversos assuntos incluindo esta fase da minha vida – pois sei que daqui a alguns anos são estes posts que vão me emocionar e contar a minha história, ou tocar a vida de outros. Enfim, eu tenho tanta coisa para falar e tantas emoções para compartilhar que eu espero que vocês gostem destes textos – que serão rotina por aqui – e que compartilhem suas opiniões e seus sentimentos comigo também.

E o assunto de hoje diz respeito ao meu mais novo papel: o de mãe. Eu demorei tanto para ser mãe e lutei tanto para conquistar este papel – muito mais do que qualquer outro da minha vida – que eu ouvi muitos clichês nesta minha trajetória. Clichês estes que hoje me assombram, apesar de nem todos fazerem sentido. No começo da maternidade tudo é muito novo e eu não me sentia a vontade em falar sobre estes sentimentos. Mas hoje, 16 meses depois de me tornar mãe, eu já me sinto confortável em dividir um pouco minha opinião sobre “ser mãe” e como este papel mudou a minha vida de diversas formas (sim, super clichê e super verdade). Selecionei uma listinha de 10 clichês e irei dar minha opinião sobre eles.

Depois que me tornei mãe eu mudei muito

Um dos clichês que eu mais ouvia das minhas amigas que se tornaram mães – e que é a mais pura verdade – é que “a gente muda muito depois de se tornar mãe” ou “a maternidade transforma a mulher”. Eu mudei, mudei muito. Minhas prioridades não mudaram muito – pois minha família sempre esteve em primeiro lugar – mas algo dentro de mim mudou sim e é super difícil de explicar. Eu sinto hoje que posso tudo, que conquistei algo que eu lutei muito para conquistar. Eu sinto que devo fazer todas as tarefas da melhor maneira possível, pois alguém depende do meu sucesso. Eu sinto que devo focar naquilo que é importante e ser produtiva ao máximo, já que tempo é precioso e eu quero passar com aquele que eu sempre sonhei. Eu tenho muito mais força para aguentar qualquer coisa. A mudança que aconteceu em mim foi muito mais profunda do que eu imaginava. Esta mudança envolve mais amor, mais doação, mais força, mais determinação e menos julgamento. Eu nunca vi esta mudança como algo ruim; pelo contrário: sou uma mulher muito mais completa, organizada (acreditem) e muito (muito) mais feliz.

Não vejo mais o mundo através dos meus olhos e sim através dos olhos do meu filho

Este clichê é engraçado e eu não conseguia entendê-lo até pouco tempo. Mas hoje ele faz todo o sentido porque a gente descobre o mundo junto com nossos filhos. Coisas que antes passavam despercebidas geram exclamações e dedinhos ansiosos no Thomas – como quando um caminhão passa ou um esquilo corre rápido na árvore. Com o tempo eu acabo notando coisas que chamariam a atenção dele e dando mais valor a esses momentos simples mas únicos para o meu filho. Outro dia começou a nevar e o Thomas ficou parado olhando pela janela, apontando e observando o chão ficar branquinho por pelo menos 30 minutos. Ai eu e o marido sentamos do lado dele, falamos sobre quando vimos a neve pela primeira vez, sobre como a neve era, e ficamos ali falando sobre a neve – e vendo aquele momento através dos seus olhinhos curiosos. Descobrir um novo mundo através dos olhos do nosso filho é muito mais do que um clichê, é uma das melhores coisas da maternidade.

Nunca mais dormi tranquila

E se eu contar para vocês que eu não me identifico com este clichê. Eu durmo muito bem a noite e muito tranquila (e feliz) com a família que Deus me deu. Eu entendo que este clichê está relacionado ao fato de que as mães ficam sempre preocupadas com seus filhos (e não necessariamente com a hora de dormir) mas felizmente ele não se aplica a mim. Eu sou muito tranquila. Quer alguns exemplos? Desde os 9 meses Thomas dorme a noite toda (quase todos os dias) e eu não uso babá eletrônica (e não fico checando se ele está respirando de hora em hora – talvez 1-2x durante a noite somente). Um outro exemplo seria que eu não fico com meu celular do meu lado no trabalho. Deixo ele no silencioso dentro da bolsa e só olho umas 2x por dia. Ah, e tem também o exemplo de que geralmente é o Thomas que nos acorda pela manhã – e não o contrário. Então acho que posso sim me considerar uma mãe tranquila.

Tem coisas que eu só entendi depois que eu me tornei mãe

Ah tem, tem MUITAS coisas que você só vai entender depois que você se tornar uma mãe. E este clichê está misturado ao fato de que você acaba entendendo mais o que sua mãe fazia por você – e sendo muito mais grata por tudo isso. Aquela vontade louca de proteger o filho, de querer ficar perto o tempo todo, de buscar lugares onde seu filho esteja bem, de pensar nele em primeiro lugar, de abandonar todas as outras prioridades, de se culpar o tempo todo… tudo isso você aprende (e vive intensamente) depois de se tornar mãe. E ao mesmo tempo você é muito grata pelo que a sua mãe faz por você.

Não é fácil ser mãe

Não, não é fácil ser mãe. A gente tem que se superar todos os dias, se reinventar, mudar as prioridades a todo minuto e doar-se por completo. E quando falo desta dificuldade não digo em função do tempo ou dinheiro e sim em função da educação, da responsabilidade em educar o meu filho e em formar um membro da sociedade que tenha um bom caráter. Eu relaciono a dificuldade de ser mãe ao fato de que a educação do meu filho depende de mim (e do meu marido). Eu acho super fácil lavar, passar, cozinhar e ainda por cima trabalhar fora, mas quando o assunto é educação (ser um modelo para meu filho, fazer escolhas sábias e dar o exemplo) eu fico sim preocupada. Preocupada porque não sou perfeita, preocupada porque eu quero dar 110% de mim para ele e nem sempre isto é possível, preocupada por não saber se as escolhas que eu estou fazendo são as melhores para a vida dele.

Intuição de mãe não falha

Clichê super verdadeiro. Sabe aquela história da sua mãe dizer para você levar o guarda-chuva porque vai chover (mesmo com um dia lindo de sol)? Então, esta é a mais pura verdade. E é engraçado porque hoje quando minha mãe fala algo – que é contrário ao que estou fazendo ou que eu não gostaria de ouvir – em um primeiro momento eu finjo que ignoro mas eu sei que ela está super certa (sim mãe, eu sei!). E com o Thomas a minha intuição – que antes de eu ser mãe era péssima – hoje não falha. Quer um exemplo? Um dia ele acordou e eu senti que ele não estava legal (apesar de ter tomado café da manhã bem e estar bem ativo). Eu resolvi ficar com ele em casa e não deu outra: uma super febre e fomos até parar no hospital. Tenho também exemplos de quando eu quero pegá-lo antes na creche porque “preciso” ficar mais com ele e por ai vai.

A chegada do seu filho vai mudar toda a rotina da sua casa

Por aqui o que aconteceu foi o contrário: criamos uma rotina nas nossas vidas. Dizem que criança precisa de rotina, de horário (certo e cedo) para dormir e de almoçar e jantar certinho. Pois bem, foi isso que acabamos incorporando na nossa vida. Hoje Thomas sempre almoça e janta super bem (e isso inclui sentarmos na mesa com ele, nem que seja só para acompanhá-lo porque eu devo confessar que eu congelo a comida dele e não consigo cozinhar para todos nós, todos os dias, como gostaria). E ele também vai para cama super cedo – no máximo 6:30pm já está dormindo – e é por isso que eu e o maridão não saímos mais a noite. Nosso início da noite é dedicada ao nosso Thomas e depois disso a gente curte, paparica Jojoe e acaba sempre trabalhando um pouco mais. Aliás, não posso considerar nossa nova rotina perfeita (depois da chegada do Thomas) porque eu e meu marido acabamos tirando o tempo que teríamos para nós para cozinhar, trabalhar, organizar a casa… e isso é algo que me incomoda um pouco e que eu gostaria de mudar. Tirando isso a nossa nova rotina é muito especial, até mesmo o fato de acordarmos cedinho também nos finais de semana.

O tempo passa muito rápido, aproveite

O último clichê fala sobre tempo. E eu fico até emocionada quando penso nele e em tudo que ele me trouxe. O tempo sempre foi meu aliado, me ajudou a curar feridas doloridas, me deixou mais sábia e me trouxe meu filho. Lembro que quando estava grávida em queria que o tempo passasse rápido, não via a hora de ter o Thomas nos meus braços e confesso que o tempo passou sim bem devagar. Ai ele chegou e o tempo voou… quando me dei conta ele já estava sorrindo para mim, sentando, comendo papinhas, ficando de pé sem apoio, indo para a creche, andando, falando… e deixando de ser um bebê. Eu tento aproveitar cada fase intensamente (outro super clichê e super verdadeiro) pois sei que sentirei saudades de cada um desses momentos… mas o que me conforta é que muitos outros momentos especiais estão por vir. E esta vida completa, louca, desorganizada e cheia de amor é certamente o clichê mais verdadeiro de todos.



  • 7 Responses

    1. Tatiana Satie Kawauchi disse:

      Oi Gabi,
      Primeira vez escrevendo no seu blog…rs…apesar de ler várias sessões dele, a que mais me emociona é esta, relacionada à maternidade. Sou mãe de uma linda bebezinha a Beatriz que já fez 9 meses, uma brasileirinha que nasceu no Panamá e tem olhinhos puxados (sou descendente de japoneses). A cada fase um novo desafio e quando pensamos que já está tudo sob controle acontece algo para que possamos nos rearranjar e nos reinventar como pais.
      Este canal é um excelente meio de informação pois independente do país, todas nós que tivemos filhos fora do Brasil precisamos de relatos reais dos desafios da maternidade, mais do que respostas prontas do que e como fazer. Adorei o post sobre o projeto “Português Lúdico”.
      Parabéns pelo seu trabalho, Tati K.

      • Ola Tatiana. Muito obrigada pelo recado e pelo carinho. Concordo com vc, os desafios são muito semelhantes em todos os lugares… o amor tbem! 🙂
        Parabéns pela Beatriz e espero que vc continue acompanhando o blog pois quero escrever mais e mais sobre esta vida de mãe fora do Brasil.
        Beijos

      • O projeto é demais mesmo. As meninas arrasam! Beijos

    2. Bruna Carnavarolo disse:

      Sempre acompanhei seu blog e claro, sua batalha para ter o Thomas.
      Parabéns Gaby! Você é fantástica.
      Confesso que seus textos (e que textos) e suas fotos lindas me cativam sempre!
      Obrigada por compartilhar sua vida em TO e seus sentimentos!
      Grande beijo!

    3. Iza disse:

      Amei seu texto!
      Eu tenho vontade de ser mãe tem quase 3 anos, mas faltava coragem… Agora estou fazendo exames e cuidando da saúde para começar a tentar daqui 4 meses. A coragem veio, mas tbm a ansiedade para que aconteça logo.
      Nesse tempo todo pesquisei bastante sobre a maternidade, desde conversar com mães sobre sentimentos, como educar… tbm sobre parto, enxoval, tudo que podia. Tenho uma amiga grávida que fala que “estou pronta”, sempre que ela tem dúvida me pergunta algo. E eu sempre falo o que acho de forma respeitosa e enfatizando que ela que tem que decidir, porque ela que está vivendo mesmo, e eu só entendo na teoria! Rs.
      A minha pergunta é… como vc tentou por muito tempo, vc tbm pesquisou, leu, conversou muito sobre o tema? Se sim, isso te deixou ansiosa?

      • Obrigada pelo comentário e pelo carinho.
        Eu evitava pesquisar porque tinha medo que não desse certo… isso não me deixava ansiosa porque eu não pensava nisso. Deixei para me preocupar quando eu estivesse grávida ou com o Thomas nos braços. 🙂 Beijos

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