Três grandes mitos do bilinguismo

“Hey papai, quero Water, please!!!” E agora? Você já ouviu falar sobre o bilinguismo? O termo bilinguismo é aplicado ao indivíduo capaz de comunicar-se em duas línguas.

Hoje nós vamos falar um pouco sobre este assunto e os principais mitos que o envolvem. Será que falar duas línguas deixa a criança confusa? O aprendizado da segunda língua faz com que a criança regrida em sua língua materna? Estas e outras questões serão abordadas aqui.

Portrait of lovely girl looking at camera at lesson of drawing

Gaby gentilmente nos convidou para publicarmos um texto em seu blog, nos solicitando que abordássemos um assunto no qual temos experiência e amamos compartilhar: o bilinguismo. Somos pedagogas e durante anos trabalhamos dentro de uma proposta bilíngue em uma escola canadense situada no estado do Rio de Janeiro, Brasil.

Os benefícios da aquisição de uma segunda língua são diversos. Quando essa aquisição acontece na primeira infância, as conexões neurológicas são ainda mais eficazes, estimulando as sinapses cerebrais de forma diversificada. Portanto, a criança adquire maior flexibilidade no modo de pensar, uma vez que é exposta a diferentes formas de processamento de informações. Sabemos que ainda existem muitos mitos sobre esse assunto. Com o objetivo de esclarecermos algumas ideias equivocadas, pontuaremos neste texto alguns mitos sobre o bilinguismo.

Mito 1 – A criança fica confusa sendo exposta a mais de uma língua.

Esta afirmativa não é verdadeira. Quando exposta a dois idiomas, há maior flexibilidade no modo de pensar, uma vez que é exposta a diferentes formas de processamento de informações. Há também um acesso a diversas formas de construção do discurso. Isso se dá, pois, a área da linguagem em nosso cérebro é uma só. Já foi constatado que o cérebro bilíngue desenvolve mais massa cinzenta na região associada à aquisição de vocabulário. Sendo assim, quanto mais estímulos o indivíduo receber, melhor será o seu desenvolvimento e a comunicação em ambos os idiomas. Não é comum que o indivíduo não faça a distinção entre uma língua e outra em seu cérebro.

Mito 2 – Sendo exposta a uma segunda língua, a aprendizagem da primeira fica em desvantagem.

O conhecimento de uma língua estrangeira contribui para o entendimento da própria língua, além de ampliar a visão de mundo e a compreensão de diferentes culturas, desenvolvendo um processo de interação no uso dos idiomas. Foi realizada uma pesquisa na Universidade de York, no Canadá, que comprovou que estudantes de línguas estrangeiras (bilíngues) normalmente possuem melhores resultados em testes padronizados do que os estudantes monolíngues. Outro ponto positivo apontado é que os estudantes bilíngues têm maior destreza em tarefas de solução de problemas. Isso ocorre porque um cérebro bilíngue está constantemente sendo desafiado a reconhecer, comunicar e decidir qual é a língua apropriada a cada situação. Esta atividade extra desenvolve vários avanços cognitivos em comparação a um cérebro monolíngue.

O que pode acontecer é, uma vez que a criança deixa de ser estimulada e de praticar sua primeira língua, esta pode ficar em segundo plano e ter seu desenvolvimento estacionado. Para que isso não aconteça é importante que, ao se mudar de país, os pais tenham o cuidado de manter a prática da língua materna e expor a criança a possibilidades de contato e aprendizado na língua.

Mito 3 – Apenas crianças possuem habilidades para tornarem-se bilíngues.

Apesar de muitos dizerem que apenas o cérebro infantil possui artifícios suficientes para aprender com eficácia uma segunda língua, isso não é verdade. De fato, o cérebro infantil possui maior facilidade para aprender línguas (plasticidade neuronal), portanto a aprendizagem na primeira infância ocorre de maneira natural. Além disso, a criança não possui tantos filtros sociais quanto um adulto. A criança erra sem medo, se arrisca com maior liberdade. Já um adulto carrega consigo uma necessidade de aceitação maior e, portanto, procura proteger-se de situações que os coloquem em maior exposição. Os adultos também têm vícios de linguagem, ou seja, estão acostumados a formar frases com estruturas rígidas. Por esse motivo, tendem a se comunicar na segunda língua obedecendo a estrutura da sua língua materna, o que nem sempre é funcional.

Todavia, não há estudos que revelem que adultos esforçados, que se dedicam ao estudo de uma segunda língua, não consigam adquirir excelência no aprendizado de outra.

Globe on stack of copybooks on background of schoolchildren drawing at lesson

Portanto, em nossa opinião, há inúmeras vantagens de se tornar e educar uma criança dentro da dinâmica do bilinguismo. Como falamos anteriormente, trabalhamos por anos em uma escola canadense com proposta de educação bilíngue (português e inglês) e pudemos acompanhar estes benefícios na prática. Estas crianças mostram-se mais atentas e com um repertório ampliado de acesso à informação, uma vez que conseguem compreender conteúdos em mais de um idioma. Além disso apresentam maior desenvoltura na área da comunicação, articulam-se bem oralmente e costumam se mostrar mais seguras mediante plateias.

Se você foi ou vai morar no Canadá com sua família, mergulhe na língua inglesa e aproveite os benefícios que seu cérebro obterá através do contato com mais este idioma. Por já reconhecerem os benefícios de uma mente bilíngue, as escolas públicas canadenses oferecem este modelo de educação desde a infância, em inglês e francês. Se vocês têm filhos e matriculá-los em uma escola por lá, poderá até ter uma criança trilíngue!

Leitores, esperamos ter sanado suas dúvidas sobre este assunto tão discutido atualmente. Ficamos agradecidas pelo convite e teremos prazer de compartilhar nossos conhecimentos sempre que possível. Para os brasileiros que vivem no Canadá e desejam que seus filhos tenham mais contato com a língua portuguesa, deixamos aqui o link da nossa página no facebook: Português Lúdico no Canadá.

Por Camilla Cariello (esquerda) e Juliana Braz (direita), mentoras do Projeto Português Lúdico no Canadá

mentoras

Fonte das fotos: freepik.com

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4 Responses

  1. Antonio Cabeda disse:

    desculpa, so uma correcacao…. o Canada nao oferece o ensino bilingue pq é bacana ter uma segunda lingua – algo do estilo, aula de lingua estrangeira no brasil – as crianças aprendem frances pq é uma das LINGUAS OFICIAIS DO PAIS, ela nao ta ali para decoracao 😉

    • Sem dúvida, Antonio, esta é a razão principal. Mas com o tempo estudos mostram que as notas no PISA destes alunos são superiores e atribuem muitos destes benefícios à educação bilíngue. Hoje, no mundo globalizado em que vivemos, uma outra língua também têm uma importância muito grande e as vantagens são infinitas, ainda que no país em que se viva a língua oficial seja apenas uma.

  2. Mariana Salin disse:

    Ótimo post! Muito bem explicado! O conteúdo do blog está ótimo Gabriela, parabéns!

  1. 21/04/2017

    […] em relação à um cérebro monolíngue. Já falamos um pouquinho sobre o bilinguismo anteriormente aqui no blog da Gaby. Como profissionais em educação bilíngue e percebendo essa demanda, ainda no […]

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