Os vizinhos

Um dos tópicos selecionados para eu escrever aqui no blog foi “Sobre nossos vizinhos”. Na verdade acho que deveria ser “Sobre conviver com culturas diferentes todos os dias”, já que moramos em um dos dois prédios da Universidade de Toronto para famílias de estudantes e, além de nós, 712 famílias moram aqui.

Então, pensem comigo: Toronto, cidade multicultural, 713 famílias de estudantes estrangeiros… São chineses (muitos), indianos, muçulmanos, africanos, europeus, outros povos asiáticos, latinos etc… gente de tudo quanto é parte do mundo, sob o mesmo “teto”, diferentes culturas tentando seguir as mesmas regras. Nem sempre isso funciona, mas aqui até que dá muito certo!

Eu não posso dizer que tenho amizade com algum vizinho. Tem aqueles que você encontra sempre no corredor, que você fala na lavanderia, mas só. Nada de muitos contatos, muita intimidade… afinal, as pessoas aqui possuem comportamentos diferentes, ninguém é muito aberto e receptivo como o povo brasileiro é…

Tem algumas situações estranhas e esquisitas que já aconteceram (e acontecem) e eu irei comentar aqui.

1. Joe, o cachorro assustador.
Gente!!! Quem vê o Joe andando no corredor, todo peludo, babão, nunca imaginaria que ele poderia ser assustador, assassino ou algo assim, certo? ERRADO. Nossa vizinha de andar morre de medo do Joe. Chinesa, deve ter uns 40 anos, não fala uma palavra em inglês (pelo menos nunca falou nada para mim), toda vez que vê o Joe no corredor berra “ai” e sai correndo. Quer ver quando coincide de pegarmos o mesmo elevador. Ela sai na hora, em pânico total. E isso acontece também com outros chineses… todos tem medo de cachorro (ou será somente do Joe?)!

2. O cantor de ópera
Os vizinhos da porta da frente são um casal da África do Sul e seu filho. A mulher faz PhD na Universidade e nunca dirigiu a palavra para a gente (eu ou o Ju). O bebê tem 6 meses e adora o Joe (inclusive o pai coloca a criança no chão quando o Joe está e o Joe lambe ele todinho – eu não falo nada). E o homem cuida do bebê e da casa, além de ser cantor de ópera. Gente, várias vezes estamos jantando, almoçando, estudando e ouvimos ele cantando nos corredores. Ele é super afinado. Eu não entendo nada do que ele canta, mas é divertido.

3. A “simpatia” no elevador
Geralmente quando você entra no elevador e há outras pessoas dentro, você diz olá, bom dia, ou faz algum comentário sobre o tempo, certo? Mas aqui no prédio a coisa é diferente: ninguém fala com ninguém, e algumas pessoas ficam de costas para você ou olhando para a parede. Engraçado como num lugar onde as culturas se misturam há esta falta de educação e comunicação. Eu realmente não entendo. Obviamente não vou generalizar (especialmente porque quando estou com o Joe muitas pessoas vem falar comigo). Mas posso dizer que mais de 50% das vezes que entro no elevador ninguém fala comigo! No começo achei que o problema era eu, mas agora tenho certeza que é da sociedade.

4. Os “aromas” (ou seria “o” aroma)
Sim, eu admito: nosso edifício fede a comida chinesa. Levando-se em consideração de que os chineses estão dominando o mundo isso não deveria ser novidade. Mas é um cheiro insuportável, que de certa forma já estamos acostumados. Eu gosto (ou gostava) de comida chinesa, mas será que não dá para colocar menos óleo, será que não dá para fechar a porta ou colocar um exaustor, será que não dá para lavar a roupa e o cabelo depois de fazer comida? É impressionante quando estamos no elevador e entra uma pessoa chinesa. Na hora vem aquele cheirinho familiar de shoyo, curry ou sei lá o que! Enfim… na verdade eu evito pensar muito hehehehe!

5. As crianças
O fato de ter diferentes nacionalidades faz com que vejamos crianças de diferentes tipos. E, posso dizer, uma mais linda que a outra. É incrível como, não importa a raça, criança é sempre linda e carismática. Eu babo pelos bebês (e são muitos) e pelas japinhas que vejo por aqui. Se saimos de casa perto das 9am ou voltamos em torno de 4pm o hall (horários de saída e chegada da aula), os corredores e os elevadores estão repletos de crianças. A maioria é muito educada e inteligente (falam a língua de origem, mais inglês e francês).

6. Se você não quer mais…
Aqui nada é jogado fora. Se você não quer mais algo, tem uma sala aonde você pode deixar seu objeto obsoleto e pegar outro que você precise. E as pessoas fazem isso aqui demais. São móveis, livros, roupas, utensílios de cozinha, eletrônicos […] tudo lá, caso você precise. Eu não tive coragem de ir lá… mas acho que é da nossa cultura mesmo.

7. Varanda = reservatório de entulho?
Quem olha de fora nosso edifício tem a sensação de que algo não está certo?! (pelo menos eu tenho esta sensação). Não sei porque, mas as pessoas não usam as sacadas para colocar um cadeira e relaxar, ou fazer um mini-jardim para ficar mais perto da natureza; elas usam suas varandas para guardar entulho. Gente, é horrível.

8. E, é claro, o pianista!
Óbvio que tinhamos que ter um vizinho pianista. Não tem como fugir desta regra. Mas agradecemos pois ele é um bom pianista e pratica (todos os dias) das 21h as 22h (horário que geralmente estamos vendo TV, o que não interfere nos estudos).

No fim, o que posso dizer é que moramos no centro da cidade, praticamente dentro da Universidade, a 10 minutos (a pé) de onde tenho e dou aula, pertinho de tudo… isso já por si só é um ponto positivo de estar aqui. E, sinceramente, é uma experiência e tanto viver em contato com tantas culturas. Vai saber se a gente faz coisa que é estranho ou mal educado para o outro e não sabemos. O importante de tudo isso é aproveitar ao máximo este “presente” que estamos vivendo, a maneira com que estamos vendo o mundo agora (menos materialista do que éramos), a experiência adquirida (e não tem entulho na sacada que apague isso) e, para as pessoas que pensam positivamente como eu, sem sombra de dúvidas a lista de coisas boas é infinitivamente maior do que a de coisas ruins.

Como diz a parede da minha sala: “Home is where the heart is“, ou seja, nosso lar é aonde estamos, não importa como, aonde, qual o tipo de piso, cor da parede, número de quartos ou a nacionalidade dos vizinhos…



  • 2 Responses

    1. Meu comentario de “abelhudinha” rs: Sei muito bem o que voce passou nesse predio em que morou perto da UofT, para estudantes. Eu ja tive tb minhas experiencias Canadenses rs…. Em muitos predios “os aromas nada agradaveis” sao dos Chineses e tb dos Indianos !! Qto aos entulhos nas varandas tb nao consigo me acostumar, mas tem “gracas a Deus” predios que nao permitem !! Como vc esta no predio da Universidade nao deve ter muito contato com Canadenses “como vizinhos”, mas qdo tiver, e creio que ja teve (ainda nao cheguei em 2013 em seu blog !) vera que eles sao um pouco + educados. Nao como Brasileiros em beijos e abracos, mas pelo menos nos cumprimentam no corredor, elevador com pelo menos “Good Morning” “Good Evening” “Hi” “Hi, how are you?” com um sorriso nos labios. Na maioria em “TO” eh assim mesmo como vc descreveu. Qdo vamos um pouco + distante melhora rs…. Estou fora de TO e agora (por problema fisico) vou ter que voltar a morar em TO e estamos procurando, mas ta dificil …. rs….

    2. Letícia Giacomin disse:

      Gaby, que vizinhança doida! hahahaha Mas mesmo assim ainda parece divertido! Principalmente o tal cantor de ópera!
      Beijoooo

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